Pular para o conteúdo
Início » Eliane Costa e sua inestimável contribuição à cultura brasileira

Eliane Costa e sua inestimável contribuição à cultura brasileira

Muita gente que desenvolve projetos culturais no Brasil acaba, por, em algum momento – caso seja bem sucedido – se relacionar com a Petrobras, a maior empresa investidora na produção cultural brasileira. Nos últimos nove anos, quem manteve contato com a área de patrocínio teve o privilégio de conhecer sua gestora, Eliane Costa, uma pessoa rara. Eliane é cantora e cavaquinista do bloco Escravos da Mauá, formada em física, desenvolveu softwares nos anos 1970 e migrou, nos anos 1990, para a área de comunicação. Mais recentemente, fez seu mestrado sobre cultura digital na Fundação Getúlio Vargas. Esse seu estudo resultou no excelente livro Jangada Digital, lançado ano passado, e noticiado por aqui.

Eliane anunciou hoje que irá se aposentar da Petrobras, consequentemente deixando o seu posto na gerência de patrocínio. Republico aqui no Trezentos a sua carta de despedida. Eliane carrega consigo uma das chaves para entender o sucesso da gestão de Gilberto Gil e Juca Ferreira no Ministério da Cultura do governo Lula. A frente do patrocínio da estatal, organizou uma política pública de cultura alinhada às diretivas do MinC, e com isso conseguiu fomentar e estimular a diversidade cultural em nosso país. Tive o privilégio de contar com seu apoio, orientação e visão estratégica em muitas das atividades que desenvovemos, sempre em busca de fazer da cultura digital brasileira uma das mais adimiradas do mundo.

A passagem de Eliane como gestora de políticas culturais da Petrobras será lembrada como uma edificação sem par, ainda mais se considerarmos o padrão das políticas de patrocínio desenvolvidas pelas empresas brasileiras. Toda sorte a Eliane, nessa sua nova empreitada. Ela, sem dúvida, seguirá contribuindo e muito para o desenvolvimento da cultura brasileira. Afinal, gente boa não anda só, mas anda em boa companhia.

Caros colegas, parceiros e amigos

Como alguns de vocês já sabem, desde o início do ano me preparo para me aposentar da Petrobras, deixando, por conseguinte, a Gerência de Patrocínios, o que faço agora, nos primeiros dias de maio. Não foi uma decisão abrupta: ao contrário, posso dizer que comecei a pensar nisso há dois anos, após terminar o Mestrado e lançar meu livro Jangada Digital, sobre as primeiras políticas públicas do Ministério da Cultura para o cenário das redes: os Pontos de Cultura, na gestão Gilberto Gil.

Minha decisão ganhou força quando fui convidada, no final do ano passado, para fazer um Doutorado na Sorbonne, levando para lá a pesquisa sobre essa experiência brasileira, agora acrescida dos igualmente originais e potentes movimentos de sociedade civil que trabalham nessa mesma interseção cultura / redes digitais / território / cidadania, dentre os quais Afroreggae, Fora do Eixo, Central Única das Favelas, Nós do Morro, Viva Favela, Agência de Redes para a Juventude, Casa da Cultura Digital, Universidade das Quebradas, Observatório de Favelas, PontoCine Guadalupe, Narrativas Digitais, Redes da Maré, Tramas Urbanas, Regiões Narrativas, Crescer e Viver, Conexão Felipe Camarão, Tangolomango e tantos outros. Isso sem deixar de fora o fenômeno de microempreendedorismo representado pelas mais de 100 MIL lan-houses que se espalham pelos bairros populares e favelas brasileiras: um número impressionante, principalmente quando comparado às 5 mil bibliotecas públicas, 2200 salas de cinemas ou 2500 livrarias no país. Devo dizer que essa cena brasileira é muito reconhecida no exterior por sua originalidade, ousadia e potência transformadora.

Parte expressiva dessa efervescência cultural foi incentivada pelo enfoque das políticas públicas a partir de 2003, que então passaram a enfatizar a perspectiva da diversidade e dos direitos culturais, ao lado de uma concepção contemporânea de cultura e da percepção dos desafios que estão hoje a ela colocados. Essa cena foi, ao mesmo tempo, energizada pela Petrobras, que identificou nessas manifestações algumas das prioridades de sua própria política de patrocínio cultural: “contribuir para a realização de projetos de interesse público, não necessariamente na evidência do mercado e que contemplem a cultura brasileira em toda a sua diversidade étnica e regional”, bem como “contribuir para a afirmação da cultura como direito social básico do cidadão”.

Eu não poderia, portanto, perder a oportunidade de, após essa experiência de formulação e gestão de uma política cultural institucional articulada com as políticas públicas para o setor, continuar refletindo sobre a “cultura das redes” e seu diálogo com a chamada “cultura da periferia”, assuntos que, “juntos e misturados” aos seus valentes protagonistas, me proporcionaram as experiências mais ricas e motivadoras que tive durante os quase nove anos em que fui gerente de patrocínios na Petrobras.

Assim, acabo de começar o doutorado no Centre d’Études sur l’Actuel et le Quotidien (CEAQ / Paris V), sob a orientação do professor Michel Maffesoli que, há algum tempo, já dissera que “o Brasil é o laboratório da pós-modernidade”. Não precisarei me mudar para a França nesse primeiro momento, visto que meu campo de pesquisa é aqui, mas preciso ter tempo pra estudar e disponibilidade para estar lá, por algumas semanas, pelo menos duas vezes ao ano.

Minha decisão não é nada fácil: deixo a empresa após 37 (trinta e sete!) anos de casa, durante os quais vesti a camisa da Petrobras com muita paixão. Nesses últimos nove, estive à frente das seleções públicas nacionais de projetos e da gestão do Programa Petrobras Cultural (PPC), que, desde 2003, viabilizou mais de três mil projetos provenientes de todas as regiões do país: a maior parte dos filmes brasileiros produzidos/lançados no período, ao lado de espetáculos, concertos, livros, exposições, ações de arte-educação, CDs, DVDs, portais na internet, redes, orquestras, festivais, seminários, oficinas, óperas, balés, obras de restauro de edificações históricas, ações de salvaguarda e registro do patrimônio imaterial brasileiro, festas populares, manutenção de espaços culturais e de formação, além de companhias de teatro, dança e circo.

Essas ações envolveram cultura popular, tradicional e de vanguarda; de “centro” e de “periferia”; analógica e digital; focadas não só em produção, mas também em difusão, memória, reflexão, formação de públicos, talentos e técnicos para o setor; projetos singelos e de grande porte; realizadores consagrados e os novos protagonistas da cena cultural contemporânea. Vozes, cores, linguagens, olhares, trajetórias, narrativas e sotaques que fazem jus à diversidade étnica, regional e social da cultura brasileira.

Tenho a convicção de ter trazido ao meu trabalho as idéias e energias de muitas outras pessoas que vieram antes de mim, e de outras tantas que estiveram ao meu lado nesse percurso e o continuarão, não necessariamente da mesma maneira. Certamente o período com que pude contribuir para essa atividade faz parte de uma linha muito mais longa, para trás e para frente.

Nesse momento de partida, agradeço, em primeiro lugar, à minha equipe, competente, carinhosa e companheira nos desafios de todos os dias, especialmente à Taís, minha substituta durante a maior parte desses nove anos, e aos demais gerentes setoriais e coordenadores que me acompanharam mais de perto, como Thompson, Gilberto, Claudio Jorge, Romildo e Regina, que, juntos, deram o suporte indispensável à minha gestão. Não posso citar cada um de vocês, mas sintam-se todos prestigiados e tocados por minha gratidão.

Sou muito grata, também, aos superiores que tive nessa jornada: os ex-presidentes Jose Eduardo Dutra e Jose Sergio Gabrielli, bem como a presidente Graça Foster, com quem pouco pude conviver, por conta dessa minha decisão, mas a quem desejo muita força e sucesso nesse posto que, pela primeira vez, é feminino. A Wilson Santarosa, que, como Gerente Executivo da Comunicação Institucional, foi, desde 2003, meu gerente superior imediato, agradeço muito especialmente. Todos me proporcionaram um tempo muitíssimo feliz, mesmo com todo o estresse inerente a um cargo como o que deixo agora.

Agradeço, igualmente, a todos(as) os(as) colegas e amigos(as) que fiz ao longo desses 37 anos, em todas as áreas da empresa pelas quais passei: ainda que, à época com outros nomes, a área de Tecnologia da Informação, a Universidade Petrobras, a Exploração & Produção, a Área de Negócio Internacional e em especial, a Comunicação Institucional, onde estou desde 2002, e onde aprendi muito com as demais equipes e com meus pares-gerentes. Obrigada também aos colegas e parceiros do Jurídico, Tributário, Auditoria, GAPRE, da BR e demais subsidiárias, bem como das áreas regionais de comunicação ligadas aos demais órgãos da empresa.

E, claro, aos meus amigos e familiares que estiveram perto de mim durante essa trajetória, que certamente lhes subtraiu muitas de minhas horas.

Não posso deixar de agradecer, ainda, ao Ministério da Cultura e suas fundações e autarquias vinculadas, à Secretaria de Comunicação da Presidência da República – SECOM (em especial ao seu Comitê de Patrocínios), às secretarias estaduais e municipais de cultura com os quais tive contato, às instituições culturais parceiras, aos mais de 400 especialistas que integraram as comissões anuais de seleção pública do PPC (professores, pesquisadores, críticos, realizadores vindos de todo o Brasil) e aos profissionais da imprensa (pelo respeito e consideração que sempre tiveram com a minha pessoa).

Agradeço muito especialmente aos proponentes dos milhares de projetos que tive a oportunidade de receber e ouvir (tendo a Petrobras podido, ou não, patrociná-los), tanto na sede da empresa, quanto durante as Caravanas PPC, circuito nacional de bate-papos e oficinas de projetos que inauguramos em 2005, com o objetivo de agregar à divulgação da abertura das inscrições para as seleções públicas do Programa Petrobras Cultural uma dimensão formativa, com oficinas de projetos e bate-papos diretos com artistas, criadores, produtores e agitadores culturais de todas as capitais e de algumas das grandes cidades brasileiras. Nesses circuitos, acho que ouvi quase todos os sotaques do Brasil, bem como a voz de muitos brasileiros orgulhosos de serem reconhecidos como protagonistas de nossa cultura. Nessas Caravanas, pude, acima de tudo, perceber claramente como são diversas as demandas, as dificuldades e as possibilidades dos muitos “brasis”, e como alguns pequenos detalhes nos processos, nos critérios, na política de patrocínios da empresa e no próprio relacionamento do patrocinador com os proponentes, e com seus projetos, podem fazer enorme diferença, certamente imperceptível para quem não sai de sua mesa no escritório.

Foi, realmente, uma experiência riquíssima.

Embora a importância da Petrobras para o país transcenda, em muito, os limites da cena cultural, posso afirmar que foi a partir da perspectiva da cultura que pude compreender mais profundamente a dimensão da presença dessa empresa, capaz de transformar realidades e pessoas. A possibilidade de, dentro dos meus limites, ter contribuído para essa transformação me deixa, sinceramente, muito feliz e realizada.

Vou me dedicar, a partir de agora, ao meu doutorado e a compartilhar essa experiência que tive o privilégio de acumular: dando aulas nos programas de pós-graduação da ESPM e da Candido Mendes, bem como em palestras, consultorias e projetos bacanas que surgirem. Este email da Petrobras sairá do ar no próximo dia 10. Deixo aqui, então, meus novos contatos: email elianecosta.cult@gmail.com e celular (55 21) 9976-8855.

Um grande abraço a todos! E continuemos atentos ao papel estratégico que a Cultura precisa ocupar no projeto do Brasil que queremos.

Eliane Costa
PS: Continuarei, também, como sempre, tocando cavaquinho e cantando nas rodas de samba mensais do bloco Escravos da Mauá, desde 1993 na região portuária carioca.

Eliane Costa

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *