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ACABOU A CONCILIAÇÃO

Não é simples analisar o complexo contexto atual. Mas vou tentar escrever alguns pensamentos sobre os últimos dias. Na foto, o atentado à sede do PT em Jundiaí.

1. Junho criou um ciclo de reocupação das ruas sem a presença do PT ou das organizações tradicionais de esquerda. Fundamentalmente, desde a redemocratização, a esquerda “ditou” o ritmo das mobilizações, tendo no PT um protagonista. Assim foi nas Diretas Já! Assim foi no Impeachment! Mesmo nos protestos iniciais contra o governo Lula, como a marcha contra a Reforma da Previdência, no início de 2003, ou as jornadas de luta do MST pela reforma agrária, era a esquerda no comando das manifestações sendo o PT seu principal instrumento. O imaginário político nacional nos últimos 30 anos foi influenciado por esse campo de valores. Mas desde junho isso mudou. As novas organizações de esquerda que convocaram os atos iniciados dois anos atrás, em especial o MPL, recusam-se a negociar com a herança petista. Consideram que os governos Lula e Dilma capitularam diante do capital. Essa esquerda não-petista (que depois tocaria os protestos contra a Copa do Mundo) esteve no comando do primeiro ciclo de junho.

Após a brutal repressão dos manifestantes pela Polícia Militar, no dia 13 de junho, e a ocupação generalizada das ruas no dia 17, seguida da revogação do aumento em São Paulo, o primeiro ciclo de protestos se encerrou. Nesse momento começa a segunda fase, marcada pela pulverização das pautas e a entrada da classe média desorganizada. Nesse segundo ciclo é preciso destacar a ação dos tradicionais meios de comunicação de massa, em especial o rádio e a televisão, na convocação do levante. Uma das pautas dos militantes que “saíram do Facebook” passa a ser o combate à corrupção, materializada na bandeira da PEC 37. De certa forma, na sexta 13 de março e hoje, domingo 15 de março, se confrontaram as forças que estavam em lados opostos da Av. Paulista no dia 20 de junho, quando militantes convocados pelas organizações de esquerda foram agredidos por manifestantes que carregavam a bandeira nacional.

2. Hoje, com a massa de pessoas na Paulista (1 milhão?) e protestos grandes em Brasília, Rio, e BH, a classe média mostrou sua cara, e o fez de forma expressiva. É um dado real. As ações de rua podem até parar por aqui. Mas não creio nisso. Trata-se de um pessoal que está indo às ruas e fazendo panelaços não só contra o governo, o PT, mas contra a ideia de esquerda, as pautas da esquerda, os valores da esquerda. Não é um movimento conservacionista. São pessoas que querem mudanças, mas acreditam na supremacia do indivíduo sobre o coletivo. É a nova direita. Dentro dela, há uma fração que defende uma intervenção militar e a volta de uma ditadura anti-comunista. Trata-se de um redivivo udenismo, que ficou anos sufocado. Ele sempre se expressou nas urnas. Em especial em São Paulo, manteve-se vivo, mas agora está de volta às ruas, e não quer mais saber de silêncio.

3. Comentava pela manhã com amigos sobre o papel da mídia na organização do protesto deste domingo. Lendo os jornais tradicionais, em específico a Folha e o Estado, isso era patente. É interessante porque a imprensa moderna, profissional, nasce em contraposição à imprensa partidária. A imprensa brasileira, as organizações de mídia, assumiram o papel de liderar o processo de convocação dos indignados da casa grande. De fato, eles não estão mais preocupados em manter o distanciamento crítico que marcou o ideário desse tipo de veículo (a tal da objetividade que sabemos não existir mas que era uma crença, uma ideologia do jornalismo profissional). É um processo que vimos ocorrer nos países vizinhos, e de certa forma também nos EUA, com o crescimento da força de canais como a FOX. Como aparelhos da classe média e das elites, assumiram o papel de convocadores e amplificadores desses novos protestos. Isso é ainda mais claro se lembrarmos que os partidos mais fortes do bloco de centro-direita, como o PSDB-DEM, só “aderiram” à manifestação ontem.

4. A Interagentes, de Sérgio Amadeu da Silveira, já apontava em pesquisa recente que a direita e as forças anti-petistas adquiriram ampla capacidade de concentração de atenção nas redes sociais. Mais uma vez, essa grande malha de ação em rede foi utilizada na difusão e mobilização dos protestos, sem que houvesse qualquer trabalho de resistência por parte do campo democrático-popular. Isso ficou claro no panelaço do último domingo, e também nos dias antecedentes às passeatas deste domingo. Há um ciberguerra ocorrendo, e as forças contrárias ao governo e à esquerda em geral estão com muito sólidas divisões.

5. Na sexta-feira, a manifestação não parecia conseguir defender o governo entusiasticamente. Não era esse o tom. Defendiam o legado da esquerda, as opções da esquerda, as bandeiras históricas dos trabalhadores, e também as instituições nacionais, entre as quais a Petrobras. Mas não se tratava de um ato eminentemente governista, uma vez que todos que ali estavam discordam dos rumos do ajuste fiscal proposto pela presidenta e também de muitas outras escolhas por ela feitas. Foi uma manifestação classista, que lembrou o papel desempenhado por essas organizações durante o governo FHC. Obviamente, há um papel de cooperação entre UNE-CUT-MST e outras forças de esquerda com o PT e os governos Lula e Dilma. Mas não se pode acreditar que o papel dessas organizações será o de defender acriticamente o governo. O PT, como partido, ficou sem saber muito bem como agir. Como agirá?

6. Se for para apostar em algum desdobramento, diria que este domingo enterra qualquer possibilidade de conciliação. Dilma poderia ter buscado um pacto com as oposições tão logo venceu a eleição passada, no sentido de reconciliar o país que saiu fraturado e dividido do processo eleitoral. Não quis articular politicamente, mas buscou sinalizar a esse campo realizando medidas técnicas e econômicas que supostamente agradariam as elites do país. O efeito foi o contrário. Não apaziguou os derrotados e ainda fragilizou sua relação com as esquerdas. As oposições jamais tiveram qualquer interesse em um pacto e vão lutar para sangrar a presidenta. Tentaram fazer isso com Lula em 2005 e não conseguiram. Mas os tempos são outros e agora eles têm à favor a insatisfação generalizada da classe média, já explícita durante a campanha eleitoral, e que agora tomou as ruas. Acredito que a tese do Impeachment tende a arrefecer, uma vez que não há implicação legal da presidenta em qualquer episódio de corrupção. Mas o desgaste do governo permanecerá, com a mídia, novos hubs de redes e a classe média se mobilizando contra a corrupção, o PT, o governo e tudo isso que está aí. Dilma terá de encontrar uma forma de reagir. Mas como?

7. O tempo da conciliação de classes, do “todo mundo ganha um pouco”, do “vamos botar os conflitos debaixo do colchão”, acabou. A sublevação da classe média não é um aspecto secundário. Ao mesmo tempo, os trabalhadores não vão ficar parados. Sabem que precisam pressionar o governo para que ele não ceda em demasia às pressões da casa grande. Como vai ser esse cabo de guerra? Quem tem mais forças e instrumentos?

Creio que uma das questões para as esquerdas nesse momento é encontrar um norte programático, rapidamente. É preciso estabelecer uma pauta concreta que consiga orientar um novo ciclo de avanços. Há condições conjunturais para isso? Pelo que vimos até agora, nesse início de quarto mandato do PT, o cenário é difícil. Muito difícil. Mas é preciso trabalhar nessa direção. Se não houver mudanças, o governo Dilma pode se tornar um longo e instável período de transição, sob a tutela do PMDB (já está parecendo isso).

TerraemTranse

8. Vendo as imagens de hoje pela televisão só conseguia pensar em Glauber Rocha.

1 comentário em “ACABOU A CONCILIAÇÃO”

  1. Laura ibiapina Parente

    Muito boa análise. Acho particularmente importante e merecedor de reflexão o trecho: “Trata-se de um pessoal que está indo para as ruas não só contra o governo, o PT, mas contra a ideia de esquerda, as pautas da esquerda, os valores da esquerda. Não é um movimento conservacionista. São pessoas que querem mudanças, mas acreditam na supremacia do indivíduo sobre o coletivo. É a nova direita. Dentro dela, há uma fração que defende uma intervenção militar e a volta de uma ditadura anti-comunista.”

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