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AMANHECER

para Lia Rangel

Eu iria à praia daqui a pouco apenas para escrever seu nome na areia, não fosse a certeza de que a praia será encoberta pelas águas em consequência do aquecimento global. A ideia do degelo das calotas polares deixa-me ensimesmado, imobilizado você diria, e exaspera-me o fato de a humanidade sucumbir a essas transformações no clima, com as consequentes elevação dos oceanos e inundação das cidades. Divago, velando seu sono, sobre o aquecimento global como uma vingança de Gaia aos nossos desmandos, aos meus, aos seus, aos desmandos humanos, essa espécie que, dotada de enorme capacidade criativa, resolveu arrogantemente enfrentar a natureza, achando que poderia desafiar as Fúrias com uma baioneta. E então concluo que eu, homem dotado de alguma capacidade criativa, apaixonado por você a ponto de querer escrever seu nome na areia no lusco-fusco da manhã, sou responsável pelo aquecimento global, e essa conclusão me suga em direção ao estrado da cama, como se estivéssemos na gravidade de Marte e não na da Terra, as molas do colchão pressionando minhas costelas produzindo um agudo desconforto. Estico, então, a perna esquerda, estendendo a ponta do pé para encostá-lo em sua canela, e sinto uma leve cãibra na panturrilha, mas mesmo dolorido serpenteio-me sobre você, envolvendo-a como uma sucuri faz com sua presa, você que é o último recinto seguro sobre a terra, esse planeta que sobreviverá aos desmandos humanos, aos meus, aos seus, mas para sobreviver terá de eliminar a grande maioria dos homens e mulheres que vivem sobre sua face viva, inclusive, provavelmente, eu e você. Avalio, sentindo o cheiro da madrugada, que, quando o aquecimento global elevar as águas oceânicas a ponto de sermos pegos de surpresa dentro de nossas casas, prefiro estar agarrado a você, envolto em você, como estou agora, porque você é meu magma, meu manancial, minha floresta tropical. Isto posto e serpenteado em seu corpo, com enorme pesar pelo futuro que se aproxima, penso que adoraria, depois de ir à praia escrever com um graveto seu nome na areia, passar na floricultura e lhe comprar flores, um buquê de rosas cor-de-rosa, das que você mais gosta, gigantescas rosas cor-de-rosa, mas se não há razão para ir à praia também não há para comprar rosas, begônias, crisântemos ou orquídeas, pois nenhuma flor sobreviverá às mudanças climáticas ocasionadas pelo degelo dos polos que é reflexo direto do aquecimento global. Olhando para o teto, absorto, reforço minha certeza de que o melhor a fazer é mesmo desistir de qualquer aventura (rabiscar na areia ou comprar um buquê de rosas) e seguir a seu lado, enquanto você dorme, tão plácida e alheia às minhas divagações, porque assim estaremos seguros, eu e você, sob o lençol, eternamente, seguros e enroscados, atados ao colchão pela gravidade marciana, e dessa forma talvez nem sintamos a chegada das ondas quando as águas oceânicas se elevarem, arrastando árvores, postes, carros, toldos, portas, janelas, prédios inteiros, nossa casa, nosso quarto, esta nossa cama. E quando estou mergulhado na sensação de que nada mais resta, você se move, aninhando-se ao meu peito, esgueirando-se de minha serpente para se espreguiçar, e simultaneamente beija o meu rosto e passa as mãos em meu cabelo num gesto que parece dizer: “pare de fritar meu amor!” Abraçado a você, com seu ombro encaixado na minhas axila, seu queixo no meu peito, desconcentro-me e então percebo os primeiros raios de sol cruzarem a cortina formando figuras geométricas no edredom, e essa cena me propicia um sentimento súbito de alívio e me faz notar que, enfim, amanheceu.

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