Este texto foi lido na abertura do Sarau Safado, no dia 9 de março de 2015, dia em que lancei o meu primeiro livro de poesia, “Poemas a uma mão”, que também conta com desenhos de Rafael Campos Rocha.
São duas nobres artes: a poesia e a punheta.
Ambas fruto da solidão humana.
Ambas feitas exclusivamente para a satisfação de seu autor.
Não se faz punheta para agradar quem quer que seja.
Não se faz poema para agradar leitor.
Também se bate punheta com o fito de se aliviar.
O mesmo pode ser dito da poesia.
Na punheta, o tesão vai chegando, invadindo, se alastrando. Aí só resta a palma e os movimentos contínuos que fatalmente levam ao gozo.
Na poesia, as palavras vão se acumulando dentro da gente, gerando um desejo louco de se transformar em outra coisa: árvore, rosa, canção, imagem.
Ambas, a punheta e a poesia são filhas diletas da imaginação.
E eu não sou o primeiro a pensar e sentir assim.
Abro este Sarau Safado com Oswald de Andrade, o artista-crítico brasileiro que mais me inspira.
Oswald estimula minhas bronhas mentais.
Logo no início de Um homem sem Profissão, seu livro de memórias que deveria ter quatro tomos mas que ficou inconcluso, Oswald fala da infância. E rememora que se não fosse a punheta sua vida teria sido muito pior.
“Assim, cedo mergulhava eu nesse maravilhoso universo da bronha onde permaneci virgem até quase a maioridade”.
Ou seja, o livro da vida de Oswald abre louvando a punheta.
Mais um trecho:
“As mocinhas de maiô entraram em meus olhos e ali permaneceram. Nas noites de camisolão, elas foram meu pasto e minha festa”.
Pois é isso, pasto e festa da imaginação.
Mas Oswald, vocês poderiam dizer, era um iconoclasta. Sabia ser a punheta um totem/tabu.
O que dizer, então, de Manoel de Barros, o poeta animista cuiabano, cujo universo parecia ser o das árvores e passarinhos?
A Infância – Parrrede!
Quando eu estudava no colégio, interno,
Eu fazia pecado solitário.
Um padre me pegou fazendo.
– Corrumbá, no parrrede!
Meu castigo era ficar em pé defronte a uma parede e
decorar 50 linhas de um livro.
O padre me deu pra decorar o Sermão da Sexagésima
de Vieira.
– Decorar 50 linhas, o padre repetiu.
O que eu lera por antes naquele colégio eram romances
de aventura, mal traduzidos e que me davam tédio.
Ao ler e decorar 50 linhas da Sexagésima fiquei
embevecido.
E li o Sermão inteiro.
Meu Deus, agora eu precisava fazer mais pecado solitário!
E fiz de montão.
– Corumbá, no parrrede!
Era a glória.
Eu ia fascinado pra parede.
Desta vez o padre me deu o Sermão do Mandato.
Decorei e li o livro alcandorado.
Aprendi a gostar do equilíbrio sonoro das frases.
Gostar quase até do cheiro das letras.
Fiquei fraco de tanto cometer pecado solitário.
Ficar no parrrede era uma glória.
Tomei um vidro de fortificante e fiquei bom.
A esse tempo também eu aprendi a escutar o silêncio
das paredes.
Voltando um pouco no tempo. O romantismo foi um período de ampla e farta produção punhética.
O que dizer das loas de Álvares de Azevedo àqueles mulheres todas, quando tinha menos de 20 anos e um desejo explosivo.
Mas dos românticos, selecionei um mineiro. Bernardo Guimarães, que publicou o delicioso Elixir do Pajé.
“Que tens, caralho, que pesar te oprime
que assim te vejo murcho e cabisbaixo
sumido entre essa basta pentelheira,
mole, caindo pela perna abaixo?
Nessa postura merencória e triste
para trás tanto vergas o focinho,
que eu cuido vais beijar, lá no traseiro,
teu sórdido vizinho!
Que é feito desses tempos gloriosos
em que erguias as guelras inflamadas,
na barriga me dando de contínuo
tremendas cabeçadas?
Qual hidra furiosa, o colo alçando,
co’a sanguinosa crista açoita os mares,
e sustos derramando
por terras e por mares,
aqui e além atira mortais botes,
dando co’a cauda horríveis piparotes,
assim tu, ó caralho,
erguendo o teu vermelho cabeçalho,
faminto e arquejante,
dando em vão rabanadas pelo espaço,
pedias um cabaço!
Um cabaço! Que era este o único esforço,
única empresa digna de teus brios;
porque surradas conas e punhetas
são ilusões, são petas,
só dignas de caralhos doentios.
Quem extinguiu-te assim o entusiasmo?
Quem sepultou-te nesse vil marasmo?
Acaso pra teu tormento,
indefluxou-te algum esquentamento?
Ou em pívias estéreis te cansaste,
ficando reduzido a inútil traste?
Porventura do tempo a dextra irada
quebrou-te as forças, envergou-te o colo,
e assim deixou-te pálido e pendente,
olhando para o solo,
bem como inútil lâmpada apagada
entre duas colunas pendurada?
Caralho sem tensão é fruta chocha,
sem gosto nem cherume,
lingüiça com bolor, banana podre,
é lampião sem lume
teta que não dá leite,
balão sem gás, candeia sem azeite.
Porém não é tempo ainda
de esmorecer,
pois que teu mal ainda pode
alívio ter.”
Até mesmo a ideia de um livro inteiro dedicado à punheta não é ideia nova.
Temos o Elogio da Punheta, do mineiro Sebastião Nunes, que é um ensaio, e também o Masturbações, do grande e também mineiro Affonso Ávila.
Masturbações é de 1980 e reúne homenagens punhéticas.
Separei a “por Carmen Miranda”
“balangandãs
brinco de ouro e uma
bolota assim gozo os três
bês de carmen e
bambo na cama decodifico afinal o que é que a
baiana tem”
Eu, de minha parte, homenageei Ávila no livro.
Quando nasci
(1980)
Affonso Ávila,
mineiro,
barroco
moderno
publicou
Masturbações
Jamais
entendi
o porquê
de título
tão feito.
Vai
ver
foi
por
não
ter
cu-
lhão
de
dar
ao
livro
seu
nome
verdadeiro:
Punhetas.
Affonso,
poeta
mineiro
pioneiro
punheteiro.
Também homenageei Caetano Velloso no livro.
A porra é
a lágrima
do pinto
A lágrima
é a porra
do olho.
O gozo
é o choro
da alma.
“…este raciocínio
não se aplica
ao suor e à urina…”
E Ezra Pound
Ela é minha palma
Meu pau
A antena da minha alma
E paro por aqui.
Concluindo que poesia e punheta se assemelham nas origens e nos resultados.
Unir essas duas expressões semelhantes é a proposta.
O que fiz exclusivamente para meu próprio deleite.