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Debate relâmpago – política 2.0

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Para que serve um partido político? E a esquerda? E a direita?

Inauguro com este texto um novo formato de debate: o relâmpago. Você pega sua lista de contatos do Gtalk ou de qualquer outro mensageiro instantâneo, seleciona alguns amigos, e envia a eles uma ou duas perguntas, e pede que respondam de bate-pronto.

Eles não podem ver as respostas uns dos outros. Não podem saber o que outro disse. Você organiza esse material e publica, em um blog ou neste Jornal de Debates. Feito isso, devolve para os debatedores e vê o que rola.

Na real, inventei essa história porque precisava entregar um texto e não tinha apurado nada, o que reforça a minha convicção de que tudo que é bom nasce da precariedade. Esse formato pode render bons resultados, principalmente quando o assunto proposto é um desses tidos como “polêmicos”. Pensar a política hoje em dia é difícil. Recusa e falta de parâmetros ajudam a interromper o debate. O problema é que se não agimos, tudo fica como está.

Posso dizer que tenho bons e inteligentes amigos. Gente na faixa dos 30, como eu, que já acumulou um tanto de percepção sobre a realidade e que ainda tem bastante gás para gastar na construção de um outro mundo possível (opa, ficou meio Fórum Social Mundial, não?).

Uma das principais lideranças do Circuito Fora do Eixo, uma articulação nacional das cenas musicais independentes – na minha opinião o mais interessante movimento político que rola na área cultural no Brasil – Talles Lopes diz:

Para que serve um partido político hoje em dia?

18:00 Talles: Infelizmente não andam servindo pra muita coisa que valha a pena se espelhar. Talvez sirvam como referencia de um modelo arcaico de pensar a política, desconectado com tudo que a contemporaneidade trouxe.

E como vc definiria esquerda e direita? Faz sentido para você?

18:04 Talles: Como referência de posicionamento pode ainda fazer um sentido, mas com certeza não serve mais pra definir o que é conservador ou progressista. Talvez estes termos modernos sejam um exemplo de que modelos dicotômicos não fazem mais sentido nesta nova ordem do seculo XXI. É uma referencia analógica para um mundo digital, e isso acaba gerando distorções políticas também. Talvez seja a hora de pensarmos em novas referencias conceituais pra se pensar a política nos dias de hoje, e sem duvida esse é um exercício muito instigante.

Um dos coordenadores do Coletivo Intervozes, João Brant tem opinião diferente:

Para que serve um partido político hoje em dia?

17:56 João: para organizar a disputa por espaços de poder

Como você demarcaria a esquerda e a direita?

18:00 João: De maneira geral, a esquerda defende a busca da igualdade e a justiça social como princípios organizadores da sociedade. A direita considera que a livre iniciativa econômica deve guiar a organização da sociedade, e que outras iniciativas não devem obstar esse princípio, e que desigualdades que sejam fruto deste quadro são naturais dentro desse sistema.

Quando o assunto é o novo mundo que surge com as redes interconectadas, a Wikipedia é um dos exemplos principais. Mandei também, por isso, as perguntas para o Thomas Buckup, que é da Wikimedia:

Para que serve um partido político?

18:26 Thomas: Potencialmente, para organizar um comunidade de pessoas com certa afinidade ideológica que busca promover processos de mudanças institucionais.

E direita e esquerda? Faz sentido essa divisão para você?

18:35 Thomas: Não acredito que os processos de mudança ocorrerão a partir de partidos políticos e a divisão entre direita e esquerda faz pouco sentido para mim. As mudanças ocorrerão a partir de coletivos de indivíduos com grande diversidade ideológica e não a partir de comunidades institucionalizadas de esquerda e/ou direita.

Lauro Mesquita, jornalista, autor do blog do Guaciara é um dos caras com quem mais aprendo sobre política. Aqui, ele dá sua opinião, mas aconselho que continuem a aprender com ele, com o Tiago e com o Jay Jay no blog que acima citei.

Então, para que serve um partido político hoje em dia?

17:59 Lauro: Cara, acho que o partido político ainda é indispensável. Como um espaço para se agrupar pessoas que reúnem ideias em várias frentes mas que no geral dão sentido a uma só ideia de sociedade. É o único espaço em que um monte de políticas públicas pode se tornar realidade. O que falta é que esses partidos se fortaleçam um pouco mais. Sou a favor dos partidos políticos. Acho que precisa desse tipo de mediação entre quem pensa políticas públicas específicas e quem pensa no geral e pra mim só os partidos políticos e seus integrantes podem sintetizar. Acho que é isso

E direita e esquerda, como definir?

18:05 lauro: Cara, eu ainda fico com a definição do Norberto Bobbio. quem trabalha primordialmente com o horizonte da redução da desigualdade e com a universalidade de direitos é de esquerda e quem trabalha só em função da eficiência do capitalismo e com a manutenção das coisas como elas são é de direita. Entre isso existem milhares de matizes, mas na caricatura é isso aí. Se tende mais pra um lado é de direita, se tende mais pro outro é de esquerda. Muitas vezes as coisas se confundem, daí é concordar com uma política ali e outra aqui e boa. Agora, partido de direita e de esquerda, eu acho que depende sempre do referencial.

Outro bom amigo com o qual sempre falo sobre política (aliás, meu tema predileto para tratar com os amigos, além de arte e vadiagem) é o Jorge Pereira Filho, ex-editor do jornal Brasil de Fato e atualmente na Boitempo Editorial. Ele manja muito de movimentos sociais e deu sua opinião:

Então, para que serve um partido político hoje em dia?

18:05 Jorge: Sei lá, digamos assim, em princípio, é a forma de fazer política em grupo. Na prática, a forma de isolar a política da coletividade…

E direita e esquerda

18:13 Jorge: Direita: a crença na fábula do fim da história e no Deus mercado. 18:14 esquerda: a crença no Homem e em sua capacidade de se reinventar.

E você, o que acha de tudo isso?

Esse texto foi publicado no Jornal de Debates durante a Campus Party
A imagem na abertura foi raptada do blog Tecnocrata Digital, de Plínio Medeiros

6 comentários em “Debate relâmpago – política 2.0”

  1. Partido político serve, efetivamente, pra fazer ótimos coquetéis. Lançamento de candidatura, de chapa, avaliação e gestão, etc., etc., etc.

    Direita: rebugentos.
    Esquerda: hedonistas.

    Beijo.

  2. os partidos políticos ja não servem pra nada. ou: servem à lobbies. tanto os de dirieta como os de esquerda.
    um novo mindo possível se fará,se e só numa outra institucinalidade agenciada pela autonomia individual e coletiva. através dos partidos, só mais do mesmo. na letargia em que estamos, ainda sobrevivemos de crenças. até no marxismo clássico. morto e enterrado. leiam cstoriadis: uma sociedade à deriva. é instrutivo.

  3. Bem, Savazone

    Eu acho que você deveria ler o que postei outro dia: repercutir a entrevista da Nancy Fraser. Ouça a entrevista dela. É aquilo ali. Mas pra resumir : a esquerda procura a emancipação social e a igualdade com liberdade. A direita é o que vemos no dia a dia da maior parte de nossos ditos liberais.
    Acho que teremos de reinventar isso tudo. Inclusive repensar se dá pra existir um partido que não seja da ordem. O PT que nasceu pra ser essa alternativa à esquerda convencional não está a altura da tarefa, tornou-se um partido da ordem. Mas vou ter de votar nele ainda porque o PSOL e PSTU não dá e os outros são brincadeira são legendas de aluguel pra quem brigou com o PT á esquerda e brigou com o PSDB à direita. Você que está na geração dos 30 e os seus (nossos) descendentes vão encontrar novas respostas mas ela é sempre coletiva. Houve ensaios disso, com o Forum Social Mundial e as grandes mobilizações contra a globalização neoliberal. Mas o processo ainda vai longe….

  4. Valeu André, Orlando e Malu,

    Acho que o legal é tentar vislumbrar o que cada um entende do tema para a gente ir decantando e tentando encontrar pontos em comum…

  5. No plano das ideias, a definição do Bobbio de esquerda e direita faz todo sentido do mundo. No plano das ideias, a noção do partido político como um agregador de ideias e interesses dispersos na sociedade também faz todo sentido no mundo.

    Na prática, e no Brasil (não apenas, mas em boa parte), a teoria é outra. A definição de esquerda e direita, ou até de partido político, dependem de pra que lado o vento sopra. Na prática, o Brasil tem duas grandes forças políticas: a dos que estão no poder e a dos que querem estar. Quem está fora quer entrar, quem está dentro não quer sair. E quando entra se alia às mesmas figurinhas de sempre em nome da tal da “governabilidade”.

    De qualquer forma, até pela desmoralização advinda da prática, a lógica dos partidos políticos se dissipou. Eu, por exemplo, não vejo o mínimo sentido em “torcer” para qualquer um deles. Respeito partidos menores e mais coesos, mas sei que se eles entram no poder as mesmas necessidades fisiológicas continuarão lá.

    Uma experiência na prática impossível seria dissolver o PMDB pra ver o que aconteceria. De saída, não teria um partido com força de barganha suficiente para curvar qualquer um que por acaso estiver no poder ao seu fisiologismo em troca de votos no Congresso e tempo na TV na hora de fazer campanha.

    Aí vem o seguinte: PMDB tem essa força por ter 88 deputados. Depois vêm PT (77) e PSDB (57). Os dois têm força eleitoral, mas precisam formar coalizões. Em seguida vem o DEM (56). Sumindo magicamente o PMDB (OK, não sumiria; suas 88 cadeiras se redistribuiriam), o DEM ocuparia seu lugar como amigão de quem quer que esteja no poder? Ficam seis por meia dúzia – ou um seis amorfo por meia dúzia conservadora…

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