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EBC, Agência Brasil e Mídias Sociais: verdades e mentiras

A jornalista e midiativista Carine Ross produziu um estudo sobre a relação dos jornalistas da EBC, a nova empresa pública de comunicação do Brasil, com as mídias sociais. Pelo Twitter do Dpadua soube que o atual Editor-Executivo da Agência Brasil fez críticas ao estudo, por intermédio da orientadora de Carine. Fiquei curioso. Quando li os argumentos desse senhor Ênio Vieira, resolvi quebrar o silêncio ao qual me submeti, por livre e espontânea vontade, desde minha saída da finada Radiobrás, em novembro de 2007.

Durante quatro anos, fiz parte da equipe de coordenação da Agência Brasil, primeiro como Redator e depois Editor-Chefe da dita cuja.  Nesse período, sob comando de Eugênio Bucci e Celso Nucci, e ao lado de Aloisio Milani, Andre Deak, Spensy Pimentel, Daniel Merli, Pedro Biondi, Janaina Rocha, Helenise Brant, Paulo Machado, entre tantos outros, aceitei o desafio de produzir jornalismo de qualidade em uma empresa pública de comunicação, cujo histórico era de subserviência política e intelectual.

Procuramos inovar em várias camadas, entre as quais no uso de software livre para a produção de conteúdos, na experimentação de discursos multimidiáticos e na construção de narrativas interativas, na abertura para as novas formas de comunicação compartilhada, baseadas na aliança com o cidadão produtor de informação, além de termos nos esforçado profundamente na construção de balizas éticas para a profissão no século 21.

Bom, o que me fez sair do silêncio foi o conjunto de mentiras escritas pelo Sr. Ênio, que eu não conheço.

Esse desconforto gerou uma discussão no blog de Carine. Tomo a liberdade de republicar esse thread na seqüência. Creio que ele pode ser importante para o debate promovido pela sociedade civil sobre como a EBC está construindo a “nova comunicação pública” brasileira.

Durante algum tempo, recusei-me a entrar nesse debate, porque entendi que assim daria melhor contribuição ao processo de contrução de uma comunicação efetivamente pública no país. Agora, tenho certeza de que para que isso ocorra será preciso demonstrar que muito do que foi feito no primeiro governo Lula não deveria ter sido abandonado.

Para facilitar o entendimento da discussão e o envolvimento dos demais interessados, posto a opinião de Ênio Vieira, de Carine Ross, e a minha…

Ênio – A empresa tem algo como 300 jornalistas. Mas foram entrevistados apenas 14, segundo critérios não esclarecidos pela pesquisa. Foi entrevistado o editor-chefe da TV Brasil, mas não foram o editor-chefe ou um dos dois editores-executivos da Agência Brasil. Portanto, a estudante não falou com pessoas responsáveis pela formulação direta de estratégias da Agência.

Carine – A pesquisa “As percepções dos jornalistas da EBC” se refere aos jornalistas entrevistados de três veículos: Agência Brasil, TV Brasil e Rádio Nacional Amazônia, dado que foi apresentado várias vezes durante todo o estudo. Portanto, a intenção nunca foi entrevistar todos os jornalistas, mas sim, uma amostra que  pudesse identificar o pensamento dos jornalistas desses veículos. Assim como,  as entrevistas foram feitas conforme a proporcionalidade dos entrevistados da Rádio, Agência e TV. O método e a técnica utilizada foram extensivamente demonstrados e detalhados. Da mesma forma, os conceitos empregados para a interpretação dos dados foi amplamente discutido. A pesquisa foi baseada nos conceitos de Bourdieu de “campo jornalístico” e “habitus”, e a relevância desses conceitos para a comunicação é incontestável. Portanto, utilizei sim critérios na metodologia e le pode ser visto no capítulo “Descrição da Metodologia”. Por fim, Enio  afirma que entrevistei o editor-chefe da TV Brasil e não o editor-chefe e os editores-executivos da Agência Brasil e que também não falei com as pessoas responsáveis pelas estratégias da Agência Brasil. O Eduardo Castro além de ser o chefe da TV Brasil é gerente-executivo de jornalismo da EBC, portanto, alguém com autoridade suficiente para falar da condução de jornalismo da EBC assim como da Agência Brasil.

Ênio – Eu particularmente participo há um ano de discussões de área tecnológica na EBC e sequer sabia desta pesquisa. Ou seja, ela não falou com a pessoa que mais acompanha o tema na Agência Brasil.

Carine – Não sabia que o Enio participava há um ano das discussões sobre tecnologia na EBC, encontros esses que não possuem atas e não são públicos para que os cidadãos acompanhem o andamento e o futuro do jornalismo na empresa, fato relevante para a sociedade e objeto da criação da EBC. De qualquer maneira, não era o objetivo e nem o foco da pesquisa.

Ênio – A pesquisa tampouco levou em consideração o estágio tecnológico da EBC. Não se pode pensar que uma agência com 40 mil visitantes diários exija a mesma tecnologia de um blog que tem 100 acessos dia. Há questões operacionais e de gestão que permitem ou não ter uma interatividade com um público grande. Ter jornalismo participativo exige uma plataforma tecnológica de alto custo (sobretudo vídeo e áudio) que ainda está sendo implantada na EBC.

Carine – A pesquisa não levou em consideração o aspecto tecnológico da EBC porque não é o seu foco. E a mesma tecnologia de um blogue pode sim ser utlizada em uma página com 40 mil acessos diários como da Agência Brasil, conforme o exemplo de blogues como o Vi o Mundo, do Luiz Carlos Azenha e Conversa Afiada, do Paulo Henrique Amorim. Ambos possuem, em média, de 30 a 35 mil usuários únicos por dia, com ampla publicação de arquivos em áudio e vídeo. Ou seja, os dois blogues juntos possuem quase o dobro de acesso da Agência Brasil. Implementar tecnologia não exige altos custos, vide a utilização ampla que hoje é feita em grandes portais de ferramentas como o WordPress, utilizado pelo IG e Globo.com, e que foi base de dois sites da diretoria de jornalismo da EBC em 2008: China 2008 e Eleições 2008. O próprio blogue do Planalto, pronto para ser divulgado, está sendo desenvolvido em WordPress com 1 designer e 1 programador. Portanto, é preciso investimento em tecnologia certa e ter pessoas na área de TI e de conteúdo com visão para comunicação ágil e participativa na Internet.

Savazoni – Sobre o estágio tecnológico da EBC. Trabalhei no desenvolvimento da customização da plataforma em Plone Zhope da Agência Brasil. Depois disso, fiz vários trabalhos e conheço por dentro a estrutura de gestão de informação das principais empresas do Brasil. O que fizemos na Radiobrás e a EBC herdou não é uma maravilha, mas não perde em nada para muitos dos sistemas de gerenciamento de conteúdo utilizados pelo mercado. Faço minha integralmente a opinião de Carine Ross. Se você quer aguentar o baque de acesso, sobe um servidor LAMP e roda qualquer sistema em PHP. É muito melhor do que QUALQUER outra solução. Ali, optamos à época pelo Plone e fizemos no fim de 2007 uma compra de equipamentos mais que suficientes para aguentar o baque do volume de acesso, que, pela afirmação de Ênio, continua o mesmo.

Ênio – A EBC herdou uma empresa estatal, a antiga Radiobras, cujo manual de redação de 2006 não inclui jornalismo participativo, nem textos opinativos. Os cidadãos do quadro “Outro olhar” na TV Brasil são jornalistas que fazem trabalhos pessoais, produtores de vídeo de ONGs e estudantes de jornalismo. Não se trata-se (sic), portanto, de cidadãos comuns produzindo material jornalístico.

Carine – Mais uma vez repito que o foco da pesquisa era compreender a percepção dos jornalistas da Agência Brasil, TV Brasil e da Rádio Nacional Amazônia, apesar disso, é função de uma empresa pública conceber espaço para o cidadão atuar independentemente da data de publicação do tal manual. Quem produz e edita o quadro “Outro Olhar” é um jornalista, mas o conteúdo veiculado pelo quadro é sim realizado pelo cidadão. Isso pode ser verificado vendo o próprio quadro “Outro Olhar” no Repórter Brasil. Além disso, o próprio editor do quadro pode comprovar essa minha afirmação.

Savazoni – O manual de jornalismo a que o Editor-Executivo se refere é uma peça que propõe realizar jornalismo objetivo em uma empresa pública. Ele foi abandonado pela atual gestão.

Todas as experiências de jornalismo participativo que estão em curso atualmente na EBC começaram na Radiobrás, entre elas o quadro Outro Olhar, idealizado por Adriano de Angelis, o Ponto Brasil, que tem início no Mosaico da Cultura Popular, realizado em parceria com Pontos de Cultura, o blogue PapoPan, que foi veiculado pela Agência Brasil durante o Panamericano do Rio, com jovens protagonistas sociais, entre outros.

Os novos gestores da EBC Agência Brasil desconhecem a história e, por isso, mentem.

O Manual não fala na prática de jornalismo cidadão, de fato, porque essa era uma discussão em curso na Radiobrás à época em que teve início a transição, que durou praticamente todo o ano de 2007. O canal do leitor, criado pela Agência Brasil, demonstra isso.

Muitos dos avanços foram interrompidos.

Mas se o Senhor Énio Vieira tiver algum apreço pela verdade, ele há de lembrar que na home page da Agência Brasil (isso saiu do desenho atual), havia destaque para o projeto Blogue-se (de geração de trackbacks e conversação com o os usuários da rede), para o uso do creative commons e para quatro cartilhas que explicavam ao cidadão como fazer jornalismo cidadão, blogs, vlogs e podcasts. Isso foi tirado da home page pelos novos gestores, mas o conteúdo segue no servidor, como os links anteriores demonstram.

Mais uma vez, as pessoas que estão a frente desse processo demonstram falta de compreensão mínima sobre o que a cidadania e seus métodos comunicacionais de ação. Contrapor o cidadão comum, categoria que desconheço, dos cidadãos que se organizam é o primeiro desses equívocos.

Ênio – Há questões de direito autoral que envolvem textos, fotos e vídeos que precisam ser levados em conta ao adotar o modelo de jornalismo participativo. Os defensores do jornalismo cidadão não levam isso em conta e consideram que tudo é “creative commons”. Um material plagiado e falsificado teria implicações desastrosas para uma empresa como a EBC. O trabalho da Carine não toca nesse tema.

Carine – Realmente o meu trabalho não toca nesse assunto porque todo o conteúdo veiculado pelo cidadão pode ser considerado como copyleft, nesse caso, “creative commons”. Essa premissa é a base do jornalismo participativo e a própria empresa de comunicação deve estimular o cidadão para criar o seu próprio conteúdo já em “creative commons.”

Savazoni – Não entendi o que diz Ênio sobre Creative Commons. A Agência Brasil é uma instituição pioneira na adoção de licenças flexíveis de direitos autorais, tendo sido inclusive objeto de matéria no Jornal The New York Times sobre isso. O que uma coisa tem a ver com a outra? Estão retrocedendo nesse aspecto também? Reduzindo a liberdade do cidadão de processar e recriar em cima da produção pública de conteúdos?

Ênio – A autora tampouco incluiu as restrições que se fazem ao jornalismo na era de internet, como, por exemplo, podemos ver no úlltimo livro de Caio Túlio Costa. O SMS que serve para mobilizar cidadão são o mesmo que permitem a mobilização dos ataques do PCC em São Paulo em 2005. Ou o livro “O culto do amador”, de Andrew Keen.

Carine – A base da pesquisa não está calcada no raciocínio do jornalismo conservador conforme o editor executivo cita como exemplo o livro do jornalista Caio Tulio Costa. Não se pode condenar uma ferramenta como o SMS porque algumas pessoas a utilizam de forma indevida. Sequer o SMS foi citado pois sua construção não permite o jornalismo participativo, uma vez que seu formato, se comparado aos veículos de comunicação convencionais, é o broadcasting, em que a comunicação é   realizada por uma via de mão única. O SMS não é mídia social conforme conceituado na minha pesquisa, já que esta se caracteriza  pela construção coletiva da informação entre emissor e receptor, e que por isso, são igualados em status. Minha pesquisa foi fundamentada em autores sérios, como Dan Gilmour, Pierre Levy, Castells, Ana Maria Brambilla, Marcelo Träsel,  entre vários outros. E retificando, os ataques do PCC foram em 2006 e não em 2005.

Savazoni – Bom, o que dizer de alguém que chama Andrew Keen ao debate? Há sete anos, quando chegamos em Brasília, a esperança tinha vencido o medo. O futuro derrubava as portas do atraso.

Agora, temos que ouvir um gestor da Empresa Brasil de Comunicação com esse raciocínio.

Seu Ênio, o martelo, como o SMS, pode ser usado para o bem e para o mal. Se alguém martelar sua cabeça vai doer, nem por isso o martelo deve ser proibido, ou deve? E acho que o senhor leu errado o livro do Caio Túlio, pioneiro do jornalismo online brasileiro. Apesar de discordar de muito do que ele diz, nada deveria ser interpretado como você interpreta.

Sigamos com o debate, porque a verdade precisa prevalecer. Peço que prestem anteção aos links que fiz, há muito material comprovando o que fizemos. São informações que falam por si.

5 comentários em “EBC, Agência Brasil e Mídias Sociais: verdades e mentiras”

  1. Excelente análise Rodrigo, acho que é nessa falta de compromisso em se abrir pros leitores, espectadores ou o que for é que mora um pedaço bom do fracasso das políticas de comunicação do segundo mandato do governo Lula. Isso somado a uma péssima gestão. O que é mais triste é que a EBC poderia ser uma fonte respeitável e poderia funcionar como contraponto como um foro de debate real sobre o que acontece no Brasil. Mas preferiu seguir o caminho dos veículos grandes de comunicação e se transformar em mais um espaço ideológico e pouco interessante.

  2. Rodrigo, já estava na hora de voltarmos a falar de comunicação pública, especialmente com os olhos na EBC, que poderia ser um estopim para mudar o jornalismo de vez – mas que, como sabemos e como este senhor Ênio que desconheço demonstra muito bem – ainda está longe disso.

    Qualquer investigação sobre as entranhas da rede pública de comunicação mostraria que boa parte do atraso e do engessamento é apenas má vontade, incompetência de gestão e pensamento conservador.

    Vou escrever algo sobre isso também aqui no 300.

  3. Eu agradeço, sinceramente, ao Rodrigo, por ter trazido à baila esta discussão (que, não fosse o Trezentos, eu ignoraria), e à Carine, por sua pesquisa séria e bem embasada, que muito me orgulha, tanto por isso quanto pela consequente convicção ao esclarecer o Sr. Editor-Executivo da Agência Brasil Enio Vieira.

  4. Onde chegamos??!!!! Achava o Sr Enio bastante retrógrado, mas quando ele citou o Andrew Keen como referência importante penso que Radiobrás está perdida. O Andrew Keen é leitura obrigatória em publicações da imprensa da direita obscura que vive da venda de livros didáticos, tal como a Veja. Ele deve ser livro de cabeceira de personagens como o My Nard.
    Rodrigo, uma pena ver a Radiobrás naufragando em um momento em que ela podia ser carro-chefe da virada digital, rumo a multiprogramação e a ubiquidade.
    Parabéns pelo post.

  5. Caros,

    Obrigado pelos comentários. Bora debater. Faço apenas uma retificação, em nome da justiça com muita gente séria que segue na EBC, trabalhando para a construção da comunicação pública no Brasil. O erro é generalizar e acertar quem não merece. Por isso, alterei acima o texto no trecho em que digo que os gestores da EBC mentem. Na verdade, os gestores da Agência Brasil mentem. Também deixo claro que minhas críticas são em reação à Agência Brasil e sua relação com a cidadania. Sei que avanços também ocorreram nesse período do segundo mandato de Lula. É preciso avaliar a penetração e qualidade dessas ações.

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