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Meu texto recusado pela Revista da Gol por citar José Serra

Nos últimos dez meses vinha fazendo uma coluna sobre tecnologia para a Revista da Gol. Espaço bacana. Sempre fui bem tratado pelos competentes editores e fui alertado desde o início para tratar mais de comportamento e da sociedade do que de política.

Procurei sempre seguir a orientação, mas pelo vício de origem, vez ou outra era necessário um ajuste, porque não imagino como falar de sociedade sem falar da dimensão comum, daquilo que orienta a vida de tod@s, que é a política.

Para a edição de dezembro preparei uma coluna sobre o Twitter, o sucesso que a ferramenta fez este ano, destacando-se a Copa do Mundo e as Eleições. Publico o texto aqui, para depois relatar o episódio em que o texto foi recusado pelo Diretor de Núcleo da Editora Trip, que produz para a Gol sua revista de bordo.

O ano em que o Twitter bombou

uso da rede social com textos de até 140 caracteres cresceu em 2010

Qualquer balanço do ano que está se encerrando não pode deixar de fora a importância que o Twitter adquiriu no Brasil. O site de rede social criado em 2006 para a postagem de frases com até 140 caracteres vinha sendo utilizado pela elite tecnológica, mas em 2010 atingiu as massas e fez a diferença durante a Copa do Mundo e as eleições.

Um estudo da empresa americana ComScore aponta que, em agosto, 23% dos internautas brasileiros twittaram, contra 11,9% nos Estados Unidos. Em números absolutos, os americanos ainda lideram. Mas a análise relativa mostra que ninguém usa mais o Twitter que o brasileiro. Essa explosão comunicacional produziu momentos que fizeram a diversão de muita gente e também causou um curto-circuito midiático.

Um dos episódios mais emblemáticos foi o “Cala boca, Galvão”. Durante a cerimônia de abertura da Copa do Mundo, twitteiros começaram a reclamar da performance do apresentador Galvão Bueno usando a hashtag #calabocagalvao. Hashtag é uma palavra ou expressão combinada ao símbolo # que permite indexar as informações, garantindo ao usuário acessar tudo o que foi dito sobre um assunto.

“Calabocagalvao” foi parar no primeiro lugar das palavras mais escritas do Twitter, levando usuários de língua inglesa a se questionarem sobre o que seria aquela expressão. Os brasileiros iniciaram então um exercício de gozação, criando as mais estapafúrdias versões para o fato.

Durantes as eleições, o Twitter comprovou sua força. Foi o principal instrumento no impacto entre os tradicionais veículos de massa (televisões, rádios, jornais e revistas) e a nova esfera pública interconectada, baseada na blogosfera e nos ativistas das redes sociais. Em várias ocasiões, expressões brasileiras ficaram no topo da lista das conversas mundialmente mais populares.

Sem entrar no mérito político, o caso “serrarojas” foi emblemático. No segundo turno das eleições presidenciais, José Serra (PSDB) foi atingido em uma manifestação de rua e suspendeu sua agenda. Iniciou-se uma guerra de versões sobre se ele teria sido alvejado por uma bolinha de papel ou uma bobina de fita-crepe. Twitteiros defensores da candidata governista começaram a compará-lo ao goleiro chileno Rojas, que durante uma partida simulou ter sido atingido por fogos de artifício.

A hashtag “serrarojas” se espalhou e a versão foi usada em uma declaração de Lula. Foi a primeira vez que um presidente repercutiu uma abordagem surgida nas redes sociais, comprovando o poder que passou a ter o Twitter massificado. E isso é só o começo.

Esse texto, que republico aqui, foi aprovado pelos editores da publicação, mas recusado anteontem, véspera do fechamento, pelo Diretor responsável da editora, que alegou – foi isso que me foi repassado – não querer menção ao nome do candidato José Serra, derrotado nas últimas eleições.

Como acredito que não fiz nada demais, apenas relatei um episódio globalmente comentado o qual já entrou para a história da relação entre internet e política, optei por não recuar e comuniquei aos editores, por meio da carta que reproduzo aqui, a minha decisão de não mais seguir escrevendo para a revista.

Car@s,

Antes de tudo, quero agradecer pelo tratamento dispensado e pelo espaço aberto por vocês para minhas contribuições na Revista da Gol.

Desde o primeiro momento, procurei seguir com afinco as orientações sobre quais temáticas abordar, focando nas mudanças sociais e culturais causadas pela tecnologia. Tivemos algumas diferenças em relação a alguns temas, mas creio que contornamos com maturidade e o resultado vinha me agradando bastante. A repercussão também sempre foi positiva e espontânea.

Este mês, submeti uma coluna a vocês sobre o sucesso do Twitter, impulsionado pela Copa do Mundo e pelas Eleições. Discutimos a coluna, concordamos que ela estava tratando das questões sem enfocar primordialmente o aspecto político, mas que nomeava um episódio singular até como forma de demonstrar a centralidade que essas tecnologias têm ganhado nas nossas vidas.

Ontem, na véspera do fechamento, fui acionado porque a principal instância de aprovação da editora não concordou com essa interpretação que demos à coluna e pediu alterações, com a supressão da menção ao candidato José Serra no texto. Entendo que se trata de uma publicação de bordo, vinculada à marca de uma empresa, e que interesses comerciais acabam por prevalecer em relação aos eminentemente jornalísticos.

Fiz adequações, amenizei a menção ao político tucano, mas conclui que em benefício da verdade e da primeira avaliação que tivemos não poderia assinar uma coluna para falar sobre as mudanças ocasionadas pelo Twitter suprimindo aqueles que foram os “grandes casos” da campanha eleitoral. Tentei uma nova redação, sem menção explícita a José Serra, e enviei a vocês e ela tampouco foi aceita.

Diante desse fato, só me resta agradecer pelo espaço cedido para minhas reflexões sobre o tema. Digo que procurei cumprir com qualidade e responsabilidade o papel a mim delegado, e dizer que, sem assumir tom de mártir – porque nem seria o caso – tenho pautado minha trajetória pessoal por compromissos claros e irrevogáveis com o que acredito. Quando esses valores essenciais são confrontados, só me restam duas alternativas: enfrentar e/ou partir para outra. Parto para outra.

Gostaria de pedir se vocês poderiam me mandar, apenas em formato texto, as versões todas editadas das colunas que produzi nesses meses de trabalho. Se não for pedir demais, evidentemente.

Atenciosamente,

Resolvi contar essa história porque toda vez que topamos com uma situação dessa, na minha opinião, devemos torná-la pública. Por um único motivo: talvez o acúmulo de relatos possa impedir que novas situações como essa ocorram. Isso vai ajudar a gente a melhorar a qualidade da nossa democracia.

6 comentários em “Meu texto recusado pela Revista da Gol por citar José Serra”

  1. Lamentável que interesses puramente comerciais, já que as eleições terminaram, prevaleçam. Pior é que são fatos já muitas vezes relatados na mídia e que ficaram por muito tempo na web, tornando-se inclusive, referência quando se pensa em Twitter.

  2. Caro.
    Legal ainda ver nos dias de hoje pessoas que se preocupam em defender o que pensa.
    Sua atitude foi sensata e na medida.
    Como diz uma amiga minha, vc pode ter perdido um frela, mas ganhou um admirador.
    Abraço e boa sorte.

    Junião.

  3. Então, eu já fui colaboradora de concorrentes e a orientação era a mesma: nada de política, nenhuma linha sequer. Fico imaginando o dia em que falar de política a bordo dos aviões também será proibido…

  4. Rodrigo, as pessoas não poderiam fazer diferente: não dobrar a sua verdade nem os fatos a uma conveniência política de outros, de quem lhes contrata. Mas esta história demonstra que a admiração por você não é à toa. E nos inspira para um desfecho em relação à última censura que sofremos. Embora tenhamos rompido com todos os que nos censuraram, estamos a um mês segurando para colocar isso na web, aguardando uma reunião com quem cortou nosso texto. A democracia não pode esperar mais.

    Um grande abraço.

  5. A censura foi por causa do Serra, mas bem diferente do caso dos jornalistas da TV Cultura, que tem um presidente escolhido a dedo pela gestão Tucana do estado de São Paulo. Nesse caso, a censura foi pela menção a um ex-candidato que interessaria aos petistas que fosse esquecido.

    A Gol e o governo Lula mantém relações de interesses mútuos. O caso da compra da Varig ilustra bem o que eu digo.

  6. Valeu Jefferson, valeu Lucia, Lucas, Junião, o lance é seguir atuando de acordo com convicções. Eu citei um episódio de pleno conhecimento público, apenas com a finalidade de ilustrar como uma ferramenta de internet se tornou tão importante. Os editores acharam o texto ótimo. Um cara resolveu encrencar. Ele tem todo o direito de não querer que citem o Serra na revista que compraram dele. Ele é pago para fazer esse papel. Eu não sou. Então, vou em frente. Valeu pelo apoio.

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