Pular para o conteúdo
Início » O minhocão da Cultura

O minhocão da Cultura

Placa_elevado-sp

O correspondente arquitetônico da Virada Cultural é o Minhocão. Engenharia bruta. Pra quem não é ou não conhece São Paulo, o Minhocão é um elevado que liga a Praça Roosevelt à Barra Funda, rasgando os Campos Eliseos, assassinando a Avenida São João.

A Virada é isso na cultura e vou tentar explicar porquê.

Antes de avançar, quero apenas ressaltar que sou a favor de toda e qualquer manifestação popular, principalmente às de rua. O que não quer dizer que eu goste de caminhar no Minhocão aos domingos ou depois das dez da noite.

Como boa parte dos paulistanos, deixei minha casa na noite de sábado, dia 2 de maio, para só voltar a ela 24 horas depois. Mas não consegui ficar o tempo todo no ar. Essa foi a minha primeira vez na maratona criada pelo governo demo-tucano para reagir ao ataque simbólico do PCC, nos idos de 20052006. Na ocasião, a Virada se propunha a ser uma resposta da população ao medo imposto pelo crime organizado. Arte contra as armas. Soa bem, não?

Os números do festival – seria esse o nome certo? – impressionam. Durante o dia, três milhões e meio de seres humanos se aglomeraram para vivenciar uma das 400 atrações programadas, que ocorreram em um dos 30 locais na região central adaptados para a diversão. Mergulhei na imensidão, acompanhado de alguns amigos, pensando nos ensinamentos do urbanista britânico Peter Hall, autor de Cidades do Amanhã. Para o conselheiro da rainha, cidades que se desindustrializaram, como São Paulo, só podem ser salvas pela cultura. Pode crer.

O pensamento de Hall, porém, nos coloca diante da necessidade de enfrentar um outro modelo de distribuição urbana. E o decano britânico busca na internet, na arquitetura distribuída da rede, a inspiração para forjar o futuro.

A internet tem um centro burro e pontas inteligentes. É essa descentralização que permite a organização da multidão. Tudo acontece ao mesmo tempo, mas as vias estão sempre livres para que os símbolos possam trafegar. Esses ensinamentos seriam úteis para São Paulo, onde a multidão se esfalfa em vias totalmente interrompidas, como o Minhocão.

Depois de caminhar pelas ruas tomadas do centro da metrópole por algumas horas, nas quais os mendigos tentavam dormir alheios à movimentação extemporânea, sob intenso cheiro de mijo, conclui que a Virada Cultural deveria ser muito diferente para ser legal. Ela reforça o que há de pior nesse gigantismo mórbido paulistano. É a expressão do que já deveria ser passado. É o moderno que resiste ao contemporâneo. O avesso do buscamos quando elaboramos uma política cultural.

Equívoco 1 – concentrar tudo no centro – Quase todos os eventos realizados pela prefeitura ocorriam no perímetro central da cidade. Evidentemente, nenhum dos espetáculos blockbuster ocorreu em Cidade Tiradentes ou no Grajaú, uma lógica que só faz reforçar um dos problemas principais da cidade: sua distribuição territorial desigual.

Na periferia as pessoas moram – mal, de preferência – e no centro – um único centro – elas trabalham. E quando a cultura é oferecida, é também nesse mesmo centro, que novamente se abarrota de gente procurando um espaço, um mínimo espaço, para gozar de um direito que não deveria ser privilégio, posto que é um direito. Quando o Minhocão foi desenhado (foi?) tinha a finalidade de reforçar esse fluxo para dentro, este, que hoje nos impede de andar.

São Paulo tem muitos centros. É isso que a cultura poderia nos ajudar a enxergar.

Equívoco 2 – a falta de respeito pelo espaço urbano – Cidades mais acostumadas com festas de rua, como Rio de Janeiro, Salvador ou Campina Grande, já aprenderam a lidar com os excessos dos foliões. Por isso, em época de festas, suas prefeituras realizam campanhas que pregam civilidade mínima. Podem até não conseguir um resultado efetivo, mas tentam.

Durante a Virada Cultural, vi moradores de rua serem agredidos, muito lixo na rua, senti um cheiro de mijo insuportável caminhando da Praça da República para a São João e assisti a um festival de falta de respeito pelo espaço público.

Se a Virada é uma demonstração do nível de civilidade do paulistano, estamos reprovados. Não vi nenhum esforço da prefeitura, a promotora do evento (diferentemente do carnaval, que é uma festa popular tradicional), para contornar esse problema.

Alguém poderia alegar: mas como poderíamos ter uma cultura de ocupação do espaço urbano se estamos todos confinados, a maior parte do tempo? Se já não sabemos mais o que é a rua? Seria um bom argumento em defesa dos cidadãos e mais um argumento a reforçar o equívoco que é a Virada como política cultural. Não poderíamos ter uma programação anual para ocupar o espaço urbano paulistano? Não poderíamos pensar em abrir palcos públicos no centro e nas proximidades das estações de metrô para dotar a cidade de uma malha cultural gratuita? O defensor da Virada argumentaria: mas isso já existe em São Paulo. Existe mesmo?

Equívoco 3 – falta de infraestrutura pública – Num evento promovido pela prefeitura, que propõe às pessoas permanecerem por 24 horas na rua, creio que deveria existir uma outra infra-estrutura de apoio ao cidadão. Como esse projeto não vai acabar, sugiro que pensem em quiosques com lugares para sentar, para descansar, para parar um pouco, para tomar água gratuitamente ou a custo baixo. Também penso que seria interessante alterar a rota do transporte público. Foi bizarro ver um ônibus disputando a rua que contorna a Praça da República com os foliões.

Equívoco 4 – concentrar tudo em 24 horas – Acredito que a população, a maior parte da população, não tem vocação para Cinderela. Essa escolha de 24 horas é o marketing impondo seu tempo. Não é o tempo da cultura, nem do lazer, nem do ócio. É o tempo do negócio.

Poderia criticar outros aspectos, mas não quero com este texto deter-me em questões tópicas, embora elas também sejam importantes. Minha principal crítica à Virada diz respeito à concepção de cidade e de cultura que ela prefigura. Uma concepção baseada na exceção e não na regra, na concentração e não na distribuição, na centralização e não na descentralização, no Top Down e não no Bottom Up, no discurso e não na conversa. Uma concepção Minhocão de cultura.

Hall descreve como a arte e o lazer foram responsáveis por redesenhar a configuração social de cidades como Manchester, na Inglaterra, ou Austin, nos Estados Unidos.

Na madrugada da Virada, assistindo pelo telão ao show, delicioso, em homenagem ao disco Racional, de Tim Maia, na esquina da Aurora com a São João, relembrei o alerta feito pelo ex-prefeito interventor Figueiredo Ferraz. Ele, que governou São Paulo logo depois de Faria Lima (o idealizador do Minhocão) e Paulo Maluf (seu construtor), no fim dos anos 60.

Disse Figueiredo Ferraz: “Não te destruas na ânsia de te construíres. Prefiro-te grande e viva do que gigante e morta.” Parece que até hoje São Paulo não aprendeu a lição.

8 comentários em “O minhocão da Cultura”

  1. Ni!

    Bela reflexão Rodrigo 🙂

    Por um lado, lembro que as condições da virada podem não ser tanto uma opção cultural-urbanística e sim uma consequência da opção por uma gestão política concentradora que faz o governo DEMO-PSDB. Organizar um evento de fato distribuído com as administrações locais (subprefeituras) fracas e sem participação que São Paulo tradicionalmente tem e que esse governo enfatizou seria muito difícil.

    Por outro lado, o espetáculo das massas concentradas é quase uma identificação da cultura brasileira. O arquétipo são os próprios jogos de futebol e, como você mencionou, o carnaval. A virada cultural, concentrada como é, nesse aspecto reflete também a nossa cultura. Sem base em uma pesquisa popular bem concebida, não dá para simplesmente afirmar que uma virada distribuída responda melhor à vontade dos moradores de São Paulo.

    Eu pessoalmente não acho ruim o povão todo no centro e, como participante da virada, acho mesmo ali o melhor lugar para as grandes atrações, pois evita manter as pessoas em deslocamento – o que tornaria a virada bastante chata dado o tamanho da cidade. Também o centro é o único lugar onde a maior parte das pessoas tem familiaridade para deslocar-se, o que conta muito num evento que propõe-se organizar na madrugada. São Paulo não é Londres e um prefeito não tem incentivo algum para mover pessoas a um lugar onde sejam mais prováveis incidentes violentos.

    O que suspeito estar sim mal concebido, pelo desinteresse da prefeitura na participação local, são as apresentações de artistas de menor escala fora do centro. Mas eu não passei por esses pontos para conferir.

    Por fim,
    A graça da virada é a própria multidão concentrada.
    E uma festa é uma festa é uma festa.
    Não é rede de computadores, nem urbanismo.
    O que os cidadãos precisam entender é justamente que festa não é motivo pra dar voto pra ninguém.
    Aí quem sabe quando fizerem uma festa vão perguntar pras pessoas o que elas querem ao invés optarem pelo que é políticamente mais interessante.

    E pra zuar um pouco, a gente sabe fazer festa de qualquer jeito e quanto pior for melhor vai ser e foda-se a aborrecência européia com seus quiosques e vai citar interventor na !@*#^!@&*!!! ahuaehaueaeha

    Abração,

    ale
    ~~

  2. Rodrigo, bem lembrado trazer este assunto. Mas tomara que tenha outra e voce volte para ver outra coisa.

    X milhões de pessoas juntas não se equivalem a nada que conhecemos – nem rede nem malha de transito nem midia nem comicio. Pontas inteligentes que mijam na rua – em lugares finos, como Paris, nem precisa pretexto para isso e nem por isso a Idade Média reflui. Há uma outra lógica que inclusive transcende o partido da administração ou o conceito do que seria recomendavel por óticas ideológicas: a cidade se expressa, finalmente, em festa pura, na expectativa de se ver e ver alguns minutos de arte, seja um Tim Maia cover, um piano de bar ou um velho idolo. Nós fomos nos ver. Eu fui e vi X milhòes de seres humanos agregados e fluindo de um lado para outro. Morri de medo em lugares superlotados e tambem tive de fazer meu xixi onde pude. 4 mil banheiros quimicos por milhão não seriam solução. No dia seguinte a cidade retornou ao normal, e esta é a melhor sentença neste julgamento. Trouxe comigo um sentimento pacificador das diferenças, uma sensação de pertencimento, consigo pensar neles todos quando agora digo nós.

    Pode melhorar, claro, somos homo faber e produzimos cada vez melhor, o transito dos onibus, o metro, os restaurantes e bares abertos, banheiros de bivaque, alguns códigos gerais, usar as redes para comunicar, wi-fi espalhado, os palcos cada vez mais fragmentados etc etc. Pode ter mais comida, pode convocar as outras manifestações, como o teatro, as artes plasticas, os oradores e o circo. Pode ter mais luzes, muito mais luzes.
    No fundo, é só uma cidade e seus habitantes, criando habitos, criando civilização.

    Abs

    penas

  3. Há um erro grande neste texto: o ataque do PCC não foi em 2005, mas em 2006. Logo, dizer que a Virada foi criada como reação ao fato é erro histórico. Em segundo lugar, o evento pretende demonstrar que a região central pode ser recuperada pelo viés cultural. Não é atribuição da Virada Cultural resolver todo o problema de concentração cultural e carência da periferia, até porque, em termos de Brasil isso é muito mais crônico: o eixo Rio-SP e Sul do país concentra a maioria dos investimentos em produções culturais, como se no nordeste só houvesse o que convencionamos chamar de “regional”. E a Virada não é A POLÍTICA CULTURAL, mas é parte integrante de um conjunto de ações que visam a revitalização do Centro. Quem tenta subverter algo tão simples só pode estar mal intencionado.

  4. Oi Ana Estela
    Você tem razão sobre o ano dos atentados. Já alterei. Obrigado.
    Sobre a sua opinião, uma ação como essa expressa uma concepção de cidade e cultura que só faz aprofundar o gigantismo mórbido. Eu trabalho no centro, e convivo diariamente com a diáspora dos nóias promovidas pela prefeitura demo-tucana. É essa a realidade, ausente de iniciativas culturais, do ano todo, para uma vez por ano nos regozijarmos “no maior evento de rua do mundo”. Vontade de ser gigante que nos torna nada, ou quase nada. Ou muito pouco.

  5. Boa, Rodrigo,

    Concordo contigo, principalmente em relação ao respeito pelo espaço público e a falta de infra-estrutura pública. Não vemos uma ação conjunta de outras secretarias da prefeitura, que poderiam aproveitar a ocasião para fazer campanhas que incentivassem este respeito que falta, poderíamos ter postos de coletas de lixo, por exemplo. A questão da segurança com a multidão espremida é praticamente impossível. Do meu grupo de amigos, dois deles tiveram seus celulares roubados. Sobre a descentralização, houve anos em que as atrações mais famosas estavam melhor distribuídas, mas eu não sei se a aglomeração também não se deve ao fato de que o povão quer mesmo estar ali onde todo mundo está. Mas o que mais me incomoda é que a virada não é prá todo mundo, infelizmente também vi moradores de rua alheios, completamente apartados do resto, não me lembro em qual rua, mas me lembro de ter visto a polícia cercando um grupo de nóias, tipo: “daqui vocês não passam”, para que eles não se misturassem ao povo, vi muita violência, um cara deitado no chão todo ensanguentado, sabe-se lá se vivo, polícia ao redor, vi um rapaz sendo detido pela polícia, não sei porque, mas ele ensaiava um protesto dizendo que a cidade era dele também. Enfim, diferente de outros anos, desta vez a virada prá mim foi brochante, o encanto do povo se apropriando do espaço público se quebrou, e no lugar ficou um desencanto com as pessoas e sua falta de noção sobre cidadania e civismo, com a miséria que virada alguma vai esconder. Coisas boas, sim houve, hoje por exemplo assisti ao show do Fred Wesley and the New JBs no Centro Cultural, foi ótimo, mas ambiente fechado, neutro, sem empurra-empurra, sem cheiro de mijo e sem celulares roubados.

  6. Ótimo texto!
    Sobre “abrir palcos públicos no centro e nas proximidades das estações de metrô para dotar a cidade de uma malha cultural”, existe um festival em Belo Horizonte (ainda que não gratuito) pensado justamente para circulação entre as estações do metrô (e lá existe apenas uma linha de metrô de superfície, muito menos que em São Paulo).
    Basta pesquisar pelo BH Music Station, hoje na 6a edição.
    Mas o próprio Festival de Arte Contemporânea, um dos principais festivais da cidade, já teve uma edição gratuita entre as estações (só se pagava mesmo o bilhete – na época menos de R$2,00).
    Ou seja: é mais que possível!

  7. Sava,

    quando eu li pela primeira vez, não sabia que tinha sido escrito em 2009. Ao ler, só pensei “Sava, obrigado! Finalmente há esperança para o evento”. Te juro que até fiquei emocionado ao ler este texto e lembrar do teu atual cargo. “Podemos mudar”, pensei, “e fazer algo melhor!”.

    Mas, daí, vi que é de 2009. E, claro, me decepcionei, com a conclusão de que estas ideias são do passado. E só comento aqui no texto agora na esperança de que você releia isso agora, na sua situação atual, e leia todos os comentários que tenham surgido na imprensa recentemente por causa do evento neste ano, e pondere.

    Seria mais do que sensacional ter um texto institucional (não do blogueiro que cobre a virada, não um press-release) que coloque os pormenores do por que o formato da Virada ainda é ideal. Perguntei para o pessoal da sub da Sé, que afirmaram descordar de mim plenamente em relação ao evento, mas nunca tive a explicação institucional que pedi.

    Sava, por que este formato ainda faz sentido hoje? Por que não reestruturar a Virada para ser outra coisa? Ainda, considerando os coletivos que organizam várias atividades na região, é socialmente viável fazer a Virada neste formato?

    Outros,

    Thiago

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *