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A LINGUAGEM LIBERTADA

“A busca de uma realidade exige uma linguagem capaz de captá-la” (Marcos Faerman)

O jornalista Marcos Faerman publicou um texto na revista Versus, nos anos 70. Chama-se Palavras Aprisionadas. Faerman desacorrentou palavras em seus anos de vida e jornalismo. Era um repórter. Ainda é possível ser repórter hoje em dia? Ou melhor, a reportagem ainda é uma necessidade?

Faerman sabia que a reportagem é mais uma forma de olhar a realidade e menos um gênero jornalístico. É filha da perplexidade e se orienta pelo contato direto com as forças transformadoras do mundo. Nasce do corpo-a-corpo com a vida, como queria João Antonio, outro repórter.

Estamos na era digital. O repórter escreve um texto imenso e ninguém lê. Mas quem lê? Quem, quando, leu alguma coisa extensa? Reclama o repórter da falta de leitores – rende-se a um discurso conservador. As técnicas do repórter? O papel, a caneta Bic, o gravador. Essas eram as técnicas do repórter. Foram. Há muito não são.

O repórter Marcos Faerman, nos anos 80, descobriu a televisão. Defendeu a televisão. O repórter Marcos Faerman estimulava reportagens em quadrinhos, reportagens feitas apenas de fotos, reportagens nos muros da metrópole, estimulava as muitas formas de se contar uma história.

O repórter e sua perplexidade. O repórter é um ser em disponibilidade. Esta é quase que sua essência. Ele está à disposição dos ‘chefes’, do jornal em que trabalha. Cumpre horários, ordens. Num dia qualquer, uma hora qualquer é mandado para um lugar qualquer. É sempre assim. Ele poderá ter diante de si este homem ajoelhado no barro, olhando para um rio. O repórter olha para este homem. Procura saber sua história. Não existe mais reportagem em jornais. Existe a rede. O repórter tem diante de si a rede, com suas veias abertas, pulsantes.

Estamos na era digital. Euforia com as novas mídias. O mercado quer abocanhar as novas mídias. Quer submetê-las, essas filhas da anarquia. O repórter não se rende ao mercado. O repórter fiscaliza o mercado, o estado, o governo, em nome do cidadão. Na era digital, o repórter é o cidadão. O olhar do repórter, dos leitores, que também são repórteres. Todos os olhares. O profissional e o amador. De braços dados, para contar histórias. Múltiplos olhares. Todos os ângulos de abordagem. Interação.

O repórter e sua perplexidade. O repórter em busca da realidade. Com a sua sensibilidade. Com a sua insensibilidade. Ouvindo histórias das vidas dos outros. Sugando dos outros a única coisa que eles têm, além do corpo nu: uma história, a sua vida, a sua perplexidade, as suas próprias dúvidas e pequenas verdades (e separa grande medo). E o que ele ouviu que era ‘jornalismo’. E uma linguagem que lhe disseram que era jornalística. Nada disso lhe permite mostrar a verdade. O bom e velho jornalismo já não é capaz de ofertar a verdade. A verdade não interessa aos donos do poder. A verdade não dá dinheiro, e os conglomerados de mídia gerem um negócio. Mercadoria. Informação não é mercadoria. E é preciso coragem para dizer a verdade.

Estamos na era digital. Imagem estática. Imagem em movimento. Sons. Links. Interações tridimensionais. A verdade não precisa mais ser construída unilateralmente, mono-midiaticamente, linearmente. O repórter segura o controle do vídeo-game. É preciso jogar vídeo-game para explicar a realidade.

O repórter e sua perplexidade. “O que significa fazer jornalismo literário na era do interativo e multimídia?”, pergunta Kim Pearson, jornalista norte-americana. E responde:

“Nos últimos anos, os progressos da tecnologia e das teorias narrativas do vídeo-game sugerem a possibilidade de ferramentas que permitem aos jornalistas criar multi-encadeadas narrativas de não-ficção. Com essas ferramentas, um John Hersey dos dias de hoje poderia permitir aos leitores encontrarem seus próprios caminhos por meio das histórias dos protagonistas de um conto complexo como Hiroshima em meio a um dinâmico mosaico de lugares, sons e contexto sobre a cidade e sobre a bomba atômica que a atingiu. Não estou falando de navegar por um website – estou falando de histórias completas, com personagens desenvolvidos e uma narrativa clara, envolvente”.

Estamos na era digital. O repórter descobre a hipermídia. O repórter se rende às possibilidades. O repórter encontra o olhar daquele homem ajoelhado à beira do rio. Não dá para esquecer. Um homem de roupas rasgadas, um pescador. O homem fala com uma linguagem confusa como o vento que bate na água. Uma canoa parada no rio e uma rede. O repórter filma aquele olhar, aquela canoa, aquele rio, conversa com o homem, grava tudo, e interliga a história daquele homem com a história de outros homens iguais a ele – iguais ao repórter – que tentam entender o mundo da beira de um rio. Reporta.

De volta aos anos 60. Tom Wolfe escreve:

“Eu tinha a sensação, certa ou errada, de fazer coisas que ninguém havia feito antes no jornalismo. (…) Depois, li que o crítico inglês John Bayley sonhava com uma era em que os escritores tivessem a atitude de Puchkin de “lançar um olhar fresco às coisas”, como se fosse pela primeira vez, sem a obrigação permanente de ter consciência do que os outros escritores já haviam feito”.

A hora é agora, como foi ontem. É hora de lançar um olhar fresco às coisas. Utilizar as novas tecnologias para construir novas formas de interpretar e (re)conhecer o mundo.

O repórter e sua perplexidade. Sempre haverá gente disposta a ouvir histórias. Sempre haverá necessidade de entender o que ocorre ao redor, do outro lado da ponte, naquela região em que rio se alarga engolindo casas e sonhos. Sempre haverá gente disposta a fazer e narrar a história. A reportagem capta a realidade, faz da história de um a de muitos. Mostra para um que a realidade de muitos também é a dele.

Estamos na era digital. A reportagem na era digital não é diferente da reportagem na era analógica. Reportagem é contar histórias. E explorar novas possibilidades – infinitas – para retratar aquela mesma realidade que um dia foi descrita em texto, publicada em jornal, depois de produzida por mãos suadas, uma caneta bic e um caderno. Daí que o repórter precisa dominar as técnicas das novas mídias. Precisa manejar uma câmera, um gravador, um celular, um microfone, precisa saber como funcionam os softwares de edição de vídeo, áudio, de edição multimídia. Acima de tudo, precisa pensar multimídia.

Qual o melhor recurso para contar essa história? Um texto? Uma foto? Um vídeo? Um áudio? Um gráfico? Um jogo?

O repórter e os desafios da reportagem. A reportagem, não a notícia, não o fetiche do tempo-real. O homem no barro, no rio, é notícia? A quem interessa saber do homem no rio? Saber a história do homem? Quem vai comprar a história do homem do rio? A história do homem? E da mulher?

Saindo da Abstração. Jane Stevens, da Universidade Californiana de Berkley, é uma jornalista multimídia. Repórter e professora. Para ela, há dois tipos básicos de história multimídia (multimedia storytelling dizem eles por lá): 1. A dirigida pelo repórter; 2. A dirigida pelo produtor-editor.

1. O repórter no comando. “A história é geralmente um batidão do dia-a-dia ou o trecho de uma série investigativa ou de matéria especial. O repórter – às vezes chamado de “jornalista backpack” – vai a campo e usa sua câmera digital como um bloco de notas multimídia. Ele recolhe vídeos, dos quais pode extrair fotos, áudios e toda a informação que ele irá utilizar nos textos e gráficos. A história está em sua cabeça, e ela toma as decisões básicas para juntar as peças que constituem o todo”.

2. O editor no comando. “Geralmente estamos falando de breaking news (notícias de última hora) ou projetos especiais. O editor arregimenta indivíduos para produzir as peças do quebra-cabeça breaking news, como no caso de uma cidade ameaçada por tornados. Ele pede fotos ao fotógrafo, ao repórter para ir a campo fazer entrevistas, ao câmera para ir a campo e filmar a destruição, a outro repórter pede para recolher informações por telefone e a um artista que produza mapas e ilustrações. A história está em sua cabeça, e ela tomas as decisões básicas para juntas as peças que constituem o todo”.

O repórter e os desafios da reportagem. Como seria a produção de uma reportagem digital hipermídia? Labirinto cartesiano. Um rascunho de caminho:

1. Começamos na pauta, como sempre. Da ética e da pauta. Pauta é como jornalista chama o assunto. Esse assunto rende uma boa história? Interessa ao cidadão? Qual o enfoque? O ângulo? É preciso muita apuração para se chegar a uma boa pauta.

2. Partimos para a pré-produção (nesta fase é preciso começar a identificar os recursos multimídia – qual parte da história pode ser melhor contada por qual mídia? o que vou levar para a rua? com quem vou? como vou?)

3. Ganhamos, então a rua. Partimos para o corpo-a-corpo com a realidade. É preciso estar preparado. A realidade, quando se jogar na nossa cara, precisa ser capturada. Não basta apenas sentir, para depois, num átimo de inspiração e fúria, despejar as emoções no papel. Fosse assim, mandariam-se poetas, não repórteres. O repórter é um pouco poeta. É preciso registrar a realidade em bits (A verdade: 01000100101101010100010).

4. Ainda na rua, já começamos a elaborar a narrativa. É hora de pensar nos recursos que são aplicáveis, um texto que cola com um vídeo, que abre numa infografia, que pode carregar consigo um áudio e uma foto.

5. De volta da rua. É a fase de checar o que foi feito, desenhar o storyboard e iniciar o processo de edição do material bruto;

6. Feito isso, inicia-se a montagem final da reportagem hipermídia, a sua efetiva confecção artesanal, a edição;

7. Cumpridas todas as etapas, é hora de ir para o ar, momento em que tem início o processo interativo de (re)criação da reportagem pelo usuário. Isso, se o usuário não foi convidado para todas as etapas anteriores (o usuário deveria, ao menos, intervir na pauta).

Fecha o círculo.

Estamos na era digital. O repórter e os novos desafios da reportagem. Já faz tempo o repórter não trabalha sozinho. O repórter trabalha em parceria com o artista, com o fotógrafo, com o cinegrafista, com o programador: sua orquestra. O repórter precisa saber um pouco de tudo. É o maestro e pode até tocar todos os instrumentos. É bom que saiba. A reportagem, no entanto, melhor é se resulta do encontro criativo de várias perplexidades. O repórter tem nos seus parceiros o seu primeiro leitor (ou seria usuário?). E tem nos seus leitores (ou seria usuários?) um milhão de parceiros.

O repórter e sua perplexidade. A reportagem digital hipermídia é uma obra aberta. Links, caminhos, fios aparentemente desconexos se integram num todo multiforme. Tem de valorizar a essência da rede: abertura e colaboração. Ao repórter cabe encontrar as narrativas. As diferentes camadas da história.

Uma fórmula, para um mundo sem fórmulas. Com base no projeto Nação Palmares. Qualquer um pode criar uma fórmula.

(1) A narrativa principal deve ter começo, meio e fim. O usuário que caminhar apenas por essa infovia tem o direito de abandoná-la sentindo-se informado. A reportagem não é um exercício diletante. A reportagem informa. A reportagem é jornalismo. O repórter deve definir um fio condutor. Estender a mão ao usuário. (Apenas aqui é preciso lembrar que a mesma história pode ser contada de maneiras diferentes, portanto a narrativa é, em última análise, uma escolha, uma opção e não necessariamente uma obrigação decorrente da história. Evidentemente que a história pode sugerir uma narrativa específica, mas ela pode ser adotada ou subvertertida, conforme a necessidade ou vontade). O essencial – não o fundamental – deve ser trabalhado nesta camada da história. O fundamental é tudo que faz parte da reportagem. Se não for, deve ser jogado fora.

(2) O repórter pode usar a narrativa secundária para o aprofundamento da narrativa principal. A narrativa secundária pode propiciar encontros e desencontros, de acordo com a vontade do usuário. O repórter entrevista um líder quilombola. O repórter oferece além de trechos da fala desse líder a íntegra de sua conversa com o líder. Cenas que não estariam à disposição do usuário. Estimula que samplers e loops mentais ocorram, que samplers e loops reais ocorram. Pode oferecer fotos do líder, da mulher dele, do filho dele, da casa dele. A narrativa secundária pode servir também para (des)construir a narrativa principal. Serve a qualquer interesse do repórter. A narrativa secundária deve existir, porque é por meio dela que estabelece o jogo de interação da rede. Sem ela, temos nas mãos apenas uma história linear. A rede é não-linear. A mente não é linear. As histórias não são lineares. Nem mesmo a realidade é linear.

(3) A narrativa terciária pode ser tudo o que a secundária é. Pode e não pode existir. Quando existe, qualifica o trabalho. Também pode ser uma ponte para quebrar definitivamente a linearidade de uma história, abrindo portas para outros pontos da mesma reportagem que ou já foram exibidas ou ainda serão (considerando o tempo linear de narração). É o espaço ideal para pendurar textos explicativos, links internos e externos, informações adicionais (os extras do DVD). Não há fim da linha. Não há regras.

Estamos na era digital. O jornalismo é James Agee, García Márquez, Eduardo Galeano, Heródoto, René Chateaubriand, Norman Mailer, Euclides da Cunha. É Marcos Faerman, Aloysio Biondi, Rodolfo Walsh e Dan Gillmor. O jornalismo sou eu. O jornalismo é você. O jornalismo é o vídeo-repórter autodidata do Ponto de Cultura de Arco Verde, Pernambuco, que manipula uma câmera digital, capta áudio, entrevista e, de posse dos conteúdos, senta em seu computador para pós-produzir com qualidade superior a de um editor de arte de televisão.

O repórter e sua perplexidade. Os repórteres e suas perplexidades. A busca de uma realidade exige uma linguagem capaz de captá-la. Como captar uma realidade fragmentada? Como captar a realidade pós-moderna? Existe uma realidade? Ou muitas? Existe a pós-modernidade? Não é este o tempo estilhaçado, com sua potência de diversidade e perigo de unidade imposta? Existem caminhos e alternativas. Tempo propício à invenção, ao novo, à experimentação.

De volta aos anos 60. Tom Wolfe escreve:

“Eles (os jornalistas) estavam indo além dos limites convencionais do jornalismo, mas não apenas em termos de técnica. O tipo de reportagem que faziam parecia muito mais ambicioso também para eles. Era mais intenso, mais detalhado e sem dúvida mais exigente em termos de tempo do que qualquer coisa que repórteres de jornais ou revistas, inclusive repórteres investigativos, estavam acostumados a fazer. Eles tinham desenvolvido o hábito de passar dias, às vezes semanas, com as pessoas sobre as quais escreviam. Tinham de reunir todo o material que o jornalista convencional procurava – e ir além. Parecia absolutamente importante estar ali quando ocorressem cenas dramáticas, para captar o diálogo, os gestos, as expressões faciais, os detalhes do ambiente”.

Estamos na era digital. Era da liberdade radical.

De volta ao início. É necessário ser repórter. E uma das tarefas do repórter do mundo digital é descobrir onde a reportagem sobrevive, redefinida, após a libertação da linguagem. Após a libertação do próprio repórter-jornalista. As histórias sempre precisarão ser contadas, e serão contadas pelos contadores de histórias. Sejam eles quem forem. Estejam onde estiverem. Sejam homens ou máquinas.

O desafio, afinal, mudou. O desafio não mudou.

* Samplers de Palavras Aprisionadas, de Marcos Faerman, e O Novo Jornalismo, de Tom Wolfe

Texto publicado originalmente no Blog Jornalismo Digital

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