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Antropofagia, tropicália e cultura digital

“Pois bem: a viagem poética dos novos media – da holografia à poesia no computador – descende em linha direta das vanguardas históricas e neovanguardas” (Antonio Risério, em Ensaio sobre o Texto Poético em Contexto Digital)

“A chamada inteligência brasileira, com raras exceções, ainda não percebeu a mudança evidente que está ocorrendo, nem as possibilidades que estão se abrindo – e isso eu acho gravíssimo do ponto de vista da política. A diferença com relação ao primeiro mundo vai ser a possibilidade de engatar com a cultura daqui, junto com essa tecnologia, fazendo uma outra coisa, que não aquilo que o centro, digamos, que o mundo euro-americano fez”.

A afirmação do sociólogo Laymert Garcia dos Santos recoloca a questão antropofágica sob outro prisma. Atenta para o fato de que precisamos atualizar a reflexão metacultural modernista de Oswald de Andrade. Não se trata de tarefa fácil. Nosso ecossistema intelectual ainda é baseado na dualidade que contrapõe quem nega as tecnologias (os neoludistas) dos que observam a técnica como aspecto redentor do humano (tecnoutópicos)ii.

São extremos que não nos ajudam a compreender a dimensão dos desafios políticos os quais temos de superar para construir uma sociedade mais justa, portanto igualitária e livre.

Com certeza, não será por meio da importação de conceitos e soluções – muito menos pela assimilação integral da ideologia californiana – que chegaremos às respostas necessárias para a elaboração de políticas culturais contemporâneas. É preciso devorar Sergei Brin e Larry Page e devolver uma nova síntese pública, tão eficaz como as que a Google vem propondo – entre elas para a digitalização de todo o conhecimento humano.

Talvez o caminho esteja em um mergulho nos dilemas sociológicos nacionais a partir de uma nova compreensão da relação entre a sociedade “cordial” e os artefatos tecnológicos contemporâneos. O signo antropofágico, redivivo pela liderança tropicalista de Gil, orientou conceitualmente a maior parte das ações de cultura digital durante o governo Lula.

Essa condição é afirmada por diferentes vertentes ativistas e artísticas nesse período, como a de Ricardo Rosas, organizador do festival Digitofagia, cujo catálogo presta inúmeras homenagem a Oswald. Também é a referência que a artista Giselle Beiguelman, que foi curadora do principal prêmio de arte e tecnologia brasileiro, o Prêmio Sergio Motta, em seu trabalho sobre a “tecnofagia”.

Conforme observa Cláudio Prado: “A essência da cultura brasileira é tropicalista. O tropicalismo não é uma invenção, é uma constatação da nossa possibilidade miscigenada de entender as coisas, de redigir as coisas, que vêm de uma forma muito rápida. O componente essencial da cultura brasileira é alegria. Eu vejo na questão da alegria a grande aposta brasileira, que também é a do digital”.

Mais de oitenta anos depois, a antropofagia continua a nos unir. E é a partir dela que eu consigo pensar o desenvolvimento da cultura digital brasileira.

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