Em entrevista a Kiko Machado, diretor da TV UNESP, Rodrigo Savazoni apresenta a estratégia de inovação da TV Cultura e discute os desafios da TV 3.0, da inteligência artificial, das plataformas digitais públicas e da soberania audiovisual brasileira.
A TV pública diante da TV 3.0
Kiko Machado: Vamos falar agora um pouco sobre inovação. Estamos aqui com Rodrigo Savazoni, da TV Cultura, que é coordenador de inovação na emissora. Mas a gente vai começar a falar um pouquinho, Rodrigo, do Congresso da SET, das suas percepções do Congresso. Então, primeiro, muito obrigado pela sua presença, um prazer recebê-lo aqui em nosso programa.
Rodrigo Savazoni: Obrigado, Kiko. É um prazer estar aqui com vocês e poder compartilhar um pouquinho dessa experiência que a gente está começando a desenvolver na TV Cultura. Antes de mais nada, a gente compartilha do mesmo compromisso com a TV Pública, né, Kiko? Isso eu acho que é o ponto. Eu estou muito interessado, por conta do nosso trabalho, acho que tem um peso muito grande, sobre o que vai ser a TV 3.0. Dá para ver que está todo mundo debruçado sobre esse tema. É um tema que me interessa especialmente, até por conta do desafio lá na TV Cultura, e também por conta do desafio que vai ser pensar qual comunicação pública é possível nesse contexto da TV 3.0. Esse é um debate que ainda está por ser feito. E eu vejo que tem uma discussão tecnológica muito interessante acontecendo, mas acho que ela tem que ser complementada para pensarmos que tipo de conteúdo a gente quer produzir, que tipo de audiovisual, que tipo de informação educacional, jornalística e cultural a gente quer para esse novo ciclo. A tecnologia deve vir a partir daí.
Kiko Machado: Porque em cada transformação tecnológica, implementação ou inovação, ela acaba mudando alguns processos. Então acho que a TV pública acaba sendo desafiada a se reposicionar dentro desse mercado, tamanhas possibilidades que ela vai ter agora dentro dessa nova tecnologia de unir o broadcast e o broadband. Pensando na TV Cultura, então, que tem um histórico fantástico de comunicação, de programas, que marcaram a radiodifusão brasileira, vai ser muito importante mesmo a gente acompanhar de perto o que a TV Cultura está pensando em termos de inovação. E aí eu te pergunto, o que a TV Cultura está pensando em termos de inovação?
O NINO e a transformação digital da TV Cultura
Rodrigo Savazoni: Desde o ano passado (2025), temos uma nova gestão na TV Cultura, sob a liderança da Maria Angela de Jesus, que é uma profissional que veio do mercado de streaming, que veio de uma experiência também de comunicação digital muito forte. Essa gestão estabeleceu como meta trabalhar a transformação digital da Fundação Padre Anchieta. A transformação digital pode ser muitas coisas. Em que direção nós vamos nesse sentido? E aí, no ano passado, eu me somei à equipe, a partir também de uma aproximação feita pela Beth Carmona (vice-presidente da FPA), que é uma profunda conhecedora da comunicação pública, responsável por boa parte dos produtos que foram criados pela TV Cultura e que fizeram a história. Eu me somei a equipe para construir um núcleo de inovação, que a gente batizou de NINO em homenagem ao personagem do Castelo Rá-Tim-Bum. O NINO é um bricoleur. Ele é um menino inventivo, que buscava construir alternativas. Onde a gente vai buscar a nossa inspiração para fazer essa televisão voltar a ser inovadora? E a gente foi buscar nesse personagem tão icônico como o NINO. A ideia é que o NINO venha nos buscar, ele que é o melhor representante dessa televisão criativa que existiu, e nos leve para o futuro. O que a gente está buscando fazer agora é ir para o futuro. Na verdade, vir para esse presente, trazendo todos esses valores, esse patrimônio histórico que a TV Cultura desenvolveu nesses 60 anos de existência. O NINO foi constituído este ano (2026).
Um laboratório de comunicação pública e transformação digital
Dois trabalhos foram primordiais neste primeiro ano de estruturação. Vamos lançar até o fim do ano um laboratório de comunicação pública e transformação digital dentro da Fundação Padre Anchieta. Esse laboratório vai trabalhar com três frentes principalmente. É um laboratório que a gente está pensando muito em se aproximar também dos produtores de audiovisual e do universo científico acadêmico de pesquisa e desenvolvimento. Acho que é muito importante a gente lembrar que a pesquisa e o desenvolvimento no Brasil estão concentrados nas universidades. Como a gente traz isso para dentro da nossa instituição é um dos grandes desafios que a gente está procurando modelar nesse projeto.
Audiovisual e televisão interativa
O primeiro eixo é o que estamos chamando de audiovisual ou televisão interativa. Como é que a gente também traz o produtor e o criador para olhar para essas possibilidades que a gente vinha dizendo e a partir do que a tecnologia nos permite fazer. Isso porque mudam muito os processos. Muda a roteirização, muda tudo. Então como é que a gente descobre essa nova forma de fazer? Uma das possibilidades que a gente está trabalhando é reinventar ou revisar o Vox Populi, que foi um programa marcante, foi antes ainda do Roda Viva. Nele, o público era diretamente entrevistador. Tem até um meme que ficou famoso, do Caetano Veloso respondendo a uma pessoa: “Você é burro, cara. Você é burro.” Você já viu esse? Então, era do Vox Populi. Caetano não foi nem um pouco simpático com ela (risos). Mas era outro tempo, outro tempo: que fique claro que a gente não quer que ninguém entre no programa e seja chamado de burro (risos). A ideia é: como podemos alcançar esse nível de interação radical na TV interativa? A tecnologia hoje permite. Nosso plano é investigar. Trazer a TV Pública para esse lugar que sempre foi dela, de desenvolvedora de linguagem. Se a gente pensar, por exemplo, no programa do Serginho Groisman. está lá, consolidado, na Globo, há tantos anos. Ele nasceu na TV Cultura. Começou ali com a experimentação de formato. Eu lembro dos anos noventa, antes ainda da MTV, o programa musical do Gastão. Nem preciso falar da programação infantil, que sempre foi um marco de experimentação, inovação. Então como é que a gente garante que a TV Pública desse novo contexto seja inventiva, criativa, inovadora, e que atenda às necessidades do público?
Inteligência artificial, acervo e aprendizagem
O segundo eixo que a gente vai trabalhar é o da inteligência artificial, não tem como fugir. Precisamos pensar o que é a aplicação da inteligência artificial na comunicação pública, que não se limita a resolver processos internos de edição, de câmera, qualidade, vai muito além. Muito além, porque a gente está falando também de uma linguagem e de um ambiente de aprendizagem. Na TV Cultura, a gente tem um acervo de 60 anos. O acervo da Cultura é um patrimônio. Como é que a gente pode colocar, por exemplo, partes desse acervo na mão dos criadores? Isso de uma maneira a gerar conteúdos novos, baseados nesse histórico? O céu é o limite — aliás, o céu não é o limite.
Plataformas digitais públicas para a cidadania
E o terceiro eixo que buscamos trabalhar são as plataformas digitais, a plataformização. Esse debate tão importante sobre a transferência, ou não, dos conteúdos para as plataformas, sobretudo as plataformas das big techs. A gente sabe da força do YouTube. A gente viu, na Copa do Mundo, todo o esforço de investimento que fizeram para transmitir os jogos para vinte milhões de pessoas simultaneamente. Eles estão dizendo: nós somos a TV do futuro. E aí é isso: a gente quer que o YouTube seja a TV do futuro? Em que lugar queremos estar nessa TV do futuro, qual é a relação que a gente tem que ter com isso? Temos também todas as outras mídias sociais. Estudos mostram, por exemplo, que o Instagram já se tornou o principal canal para consumo de notícias. Como é que a gente se faz presente nisso? Mas aí, de maneira crítica, não é pegar o que já fazemos e jogar ali, mas explorar melhor isso. Mas o grande pulo do gato que eu acho que a gente precisa discutir é: como a gente desenvolve as nossas próprias plataformas? Plataformas de comunicação pública. Pensa o seguinte: aprovamos o ECA Digital. Sim. Grande vitória da sociedade brasileira, certo? Vamos regulamentar, vamos proteger as crianças no contexto das redes sociais. Dessa mediação dos algoritmos, das mídias sociais, de todos os perigos que estão colocados. As crianças não vão sair do universo da internet; elas não vão deixar de usá-la. Não acho que o pai ou a mãe vai deixar de colocar a criança para brincar com um joguinho quando estão ali tomando uma cerveja no fim do dia. Isso não vai acabar. E aí qual é o ponto? Será que não conseguimos desenvolver uma plataforma pública de comunicação para a infância, qualificada, sem recomendação comercial de conteúdos? Um espaço que gere e traga conteúdos interessantes, jogos inclusive, e que seja algo positivo para a criança e para a família. Se olharmos para o histórico da TV Cultura, por exemplo, nós produzimos lá dentro alguns dos melhores conteúdos infantis da história deste país. E não só a TV Cultura: outras emissoras públicas de todo o Brasil e a produção independente brasileira associada às emissoras públicas também produziram conteúdos excelentes. Isso no mundo todo. Esses conteúdos infantis qualificados são produzidos por emissoras públicas com as quais a gente tem relação. Então teríamos plenas condições de construir uma plataforma de comunicação para a infância, mas a gente precisa de investimento e precisa que esse olhar exista e hoje ele não existe. Existe o olhar da regulação, existe o olhar da proteção. Muito bem-vindos. Mas a gente precisa avançar para o olhar da produção. Nosso laboratório também vai olhar para isso. Como é que nós aprendemos a fazer isso? Não está pronto.
Tenho dito o seguinte: se chegassem hoje e dissessem que recebemos cem milhões de dólares para montar a melhor TV interativa do Brasil, teríamos um problema. A gente sabe fazer? Não. A gente vai ter que aprender. Essa é a palavra. O laboratório também tem uma parte de aprendizagem. A ideia é formar, começando inclusive pelos nossos próprios profissionais e pelos estudantes que estão chegando. Precisamos trazer essa turma para ser picada por esse vírus, que nos picou, que é de trabalhar na comunicação pública.
Redes de comunicação pública em um ambiente não linear
Kiko Machado: Dois aspectos que eu queria tratar com você: primeiro, essa questão que a gente vê aqui na feira, como é um congresso de engenharia. Eles não têm a obrigação de pensar do nosso ponto de vista do conteúdo. Claro. Eles nos dizem o que vai ser possível fazer, mas não como fazer. Então, se eu vou usar a internet no broadcast agora, como vai ser isso, de que maneira? Como é que essa informação vai estar na tela? Como é que eu vou disputar a audiência e o engajamento do telespectador em duas plataformas que têm hábitos distintos de uso? Essa é uma questão. Então, sim, eu acho que a gente vai ter de aprender muito e ter a mente aberta para aprender. A outra questão, Rodrigo, eu queria ver com você a sua opinião, porque eu acho que não cabem mais, hoje, plataformas distintas de comunicação pública. Uma rede da TV Brasil, outra Rede da TV Cultura, uma rede universitária e outras redes… Todos fazendo comunicação pública. A gente tem que entender que a comunicação pública é um bem público, é importante para a democracia, para a segurança nacional e para diminuir essas arestas. Não somos concorrentes entre plataformas. A gente tem que começar a quebrar esse paradigma também de pensar a comunicação pública fora do paradigma da TV comercial.
Rodrigo Savazoni: Eu estou absolutamente de acordo e posso te dizer que essa é a visão da atual gestão da TV Cultura. Há um interesse enorme de se aproximar de quem produz comunicação pública, de quem tem condições de fazer isso, porque a gente sabe que também nos últimos anos houve um processo de precarização muito forte das instituições que mantêm as emissoras públicas de comunicação. Esse é um desafio nacional e aqui, especificamente, para o Estado de São Paulo.
Vou te falar duas coisas sobre isso. Eu acho que, primeiro, a gente tem uma oportunidade maravilhosa aberta com essa reconfiguração dada pela TV 3.0. O modelo de rede que existiu até aqui, que estava muito baseado na programação linear e que pressupunha que você deveria seguir uma grade de programação de uma determinada emissora, esse modelo acabou. Com a TV 3.0, esse modelo não vai fazer mais o menor sentido, porque a partir do momento que eu somo o broadcast com o broadband, eu posso ofertar na não linearidade vários outros conteúdos que até hoje eu não podia oferecer. Recentemente, a gente teve um encontro com as afiliadas da TV Cultura, e falamos sobre isso. Na fala que eu fiz, falei da importância da gente repensar juntos o que é esse modelo de rede, somando cada vez mais. Eu participei da organização do Fórum Nacional de TVs Públicas lá atrás, processo que acabou resultando na criação da EBC. Na época eu trabalhava na Radiobrás, em Brasília. Dirigia justamente a parte digital naquela época. Eu e parte das pessoas envolvidas naquele processo acreditávamos que o modelo americano, estadunidense, do PBS, era mais adequado para o Brasil do que o modelo europeu, baseado em grandes empresas, como a BBC e a France Télévisions. Por que a gente acreditava nisso? Acho que a gente tem que criar o modelo brasileiro, mas o modelo do Public Broadcasting Service dos Estados Unidos, ele passava por um modelo mais descentralizado de rede. Somos também um país continental, com diferentes características dos operadores de comunicação pública. Alguns eram maiores, outros menores. Criar entre eles um modelo de troca, uma rede descentralizada, seria um sonho. A gente tinha uma dificuldade, que era dificuldade tecnológica, e também uma dificuldade de compreender que poderíamos ir por aí. Agora isso está colocado novamente. Porque a gente tem a condição de fazer essas trocas e ter essa horizontalidade na construção disso, então acho que esse é um desafio que está colocado e que a gente vai precisar inventar isso. E aí esse desafio está ali sendo propiciado pela tecnologia e o nosso desafio é institucional e de gestão e de articulação, porque tecnologicamente a dificuldade de você montar uma rede distribuída entre as emissoras públicas no Brasil acabou — ou vai acabar. Aí é uma questão da gente saber se a gente quer fazer isso.
Eu estava conversando agora mesmo com o professor Guido Lemos sobre isso. O decreto da TV 3.0 fala em uma plataforma comum, que deveria embarcar vários operadores de comunicação pública, mas fala disso apenas no âmbito federal. Então a gente oficiou a Secretaria de Comunicação da Presidência da República para saber o que será feito das radiodifusoras estaduais. Como é que vai ser? E eles acabaram criando uma Câmara de Entes Federados, a gente tem participado das discussões de forma ainda um pouco lateral, mas a ideia também é poder chegar nesse ponto. Então acho que é muito importante a gente caminhar nessa direção e romper esse paradigma.
Televisão mediada por software
Kiko Machado: Nesse novo contexto, a gente tem que assumir que nós vamos reaprender a fazer televisão.
Rodrigo Savazoni: Toda televisão, a partir de agora, passa a ser mediada por software. Então não tem mais como fazer televisão, conteúdo, sem pensar também na parte tecnológica em conjunto. Isso é uma questão fundamental. Exemplo: sou o diretor de um programa, tive uma ideia genial e quero colocar um vídeo de um sujeito entrando no meio do programa. Legal. Baita ideia. Mas eu vou ter que conversar com o desenvolvedor, que vai ter que ver se a API do middleware suporta, se o nosso aplicativo dá conta de gerar aquilo ou não. Muda o processo. Aposto nisso há bastante tempo. Todo o meu trabalho, inclusive como pesquisador — sou doutor pela Universidade Federal do ABC —, situa-se numa área interdisciplinar e eu acredito que a gente tem que romper essa dicotomia entre a tecnologia, a engenharia, a parte que faz, digamos, o hardware, e a parte que cria. Eu acho que esse é um desafio. Dentro do nosso laboratório a gente já está olhando para a questão dessa perspectiva. É uma via de mão dupla. O Guido Lemos estava me contando de algumas soluções que eles estão desenvolvendo lá no LAViD e na empresa que eles construíram para poder desenvolver os aplicativos da TV 3.0. Ele mencionou três coisas e minha cabeça de criador digital começou a trabalhar. Eu falei, mas isso aqui eles estão usando para alertas, mas também daria para usar na programação infantil. Esse nosso laboratório talvez seja o primeiro a olhar para a TV 3.0 a partir do conteúdo. A gente precisa entrar nessa conversa e levar o criador para conseguir olhar para isso. Criar programas de residência. Você pega, por exemplo, um diretor de programa, leva esse profissional para conversar com o pessoal da tecnologia, ficar ali imerso, descobrir o que dá para fazer. A gente estava vendo alguns testes ali com televisão imersiva, com conteúdo imersivo. Se eu pegar uma diretora ultra criativa, que eu tenho lá na televisão, trabalhando lá há muito tempo, fazendo programas maravilhosos, e colocar em contato com os engenheiros e com a galera da computação, e as duas forças se unirem para criar algo novo, a gente pode fazer uma coisa muito legal. Esse debate da TV 3.0, em muitos momentos ele fica muito centrado na parte comercial. A gente viu o pessoal falando fundamentalmente que agora a televisão vai voltar a ter uma nova capacidade de comercialização da publicidade, entender melhor o público que acessa. Hoje o sinal vai e fica no escuro. A gente não sabe quem está assistindo e como está assistindo. Agora, com a televisão mediada por software, todas essas informações vão chegar, mas o que eu tenho ouvido na maior parte dos debates é a potência comercial que isso produz. A televisão pública não trabalha com consumidores, trabalha com cidadãos. Para nós, a potência que isso produz é para a cidadania. Nós vamos ter que descobrir como. Eu tenho algumas intuições. Acho que você também tem as suas hipóteses, mas a gente vai ter que testar e vai ter que fazer isso acontecer. É isso que a gente está fazendo lá no Núcleo de Inovação da TV Cultura.
“A televisão pública não trabalha com consumidores, trabalha com cidadãos. Para nós, a potência que isso produz é para a cidadania.”
Rodrigo Savazoni
Kiko Machado: Parabéns pelo trabalho e pela sua forma de pensar, de enxergar os problemas. Dá até uma tranquilidade de saber que tem mais gente pensando nessa linha, porque vai ser duro. Agora a gente vai ser desafiado a fazer diferente e a gente sabe que toda inovação enfrenta esses problemas. Na televisão não vai ser diferente, mas vamos estar dispostos a fazer essa luta.
Formação, experimentação e soberania digital
Rodrigo Savazoni: Eu concordo contigo, Kiko, mas eu queria chamar atenção para um fato que eu tenho percebido lá na TV. Existe uma vontade, uma predisposição das pessoas. Eu acho que todos nós fomos invadidos nesses últimos anos por uma experiência de consumo audiovisual que se modificou muito. Os nossos hábitos também mudaram muito. E aí mesmo aqueles que ainda mantêm um vínculo mais forte com a televisão, stricto sensu, digamos assim, têm um filho, um sobrinho ou alguém próximo que já não vê a questão da mesma maneira. Isso também nos trouxe uma percepção: eu acho que cada vez mais os profissionais do campo da comunicação estão abertos a caminhar. O que eu não vejo são justamente os espaços preparados para fazer essa transição. Precisamos construir isso com generosidade e abertura, reconhecendo que a gente não sabe e que vai precisar descobrir, trazendo essa perspectiva de formação e experimentação para o centro dos nossos processos de trabalho. Agora a gente precisa pôr um programa no ar, que tem de ser assim ou assado, aquela coisa da produtividade. A gente sabe fazer isso bem-feito. Agora, vamos estudar como fazer. Acho que as pessoas estão muito abertas a vivenciar isso. E eu acho que a curva de aprendizagem para isso é muito rápida. Porque esse tipo de produção é diferente, sem sombra de dúvida, mas não é tão diferente assim, porque a criatividade humana, ela sempre encontra diferentes suportes para se expressar. Desde as primeiras pinturas rupestres, a humanidade tem usado diferentes artefatos, técnicas e tecnologias para expressar aquilo que nos singulariza como seres humanos: a capacidade de criar e produzir sentido.
A gente precisa aqui realizar um debate que ainda não está sendo feito na dimensão necessária, que é: qual comunicação pública o nosso país quer ter nesse novo contexto?
E eu diria que esse debate nunca foi tão importante, porque quando a gente fala em soberania digital, a gente precisa falar de soberania também dos conteúdos audiovisuais produzidos no nosso país. Muito importante, necessário, e é todo um contexto que nos dá condições de pautar esse debate.
Um novo Fórum Nacional de Comunicação Pública
Kiko Machado: A gente tem defendido a realização de um segundo fórum de comunicação pública. Já tem 20 anos que o primeiro foi feito. Está na hora de a gente fazer outro. Está na hora de se reposicionar e enxergar a comunicação pública de uma forma capaz de fazer frente a essas ameaças externas que nós estamos tendo em relação a big techs, algoritmos, toda essa problemática da proteção de dados. A comunicação pública tem o dever e pode contribuir muito nessa tarefa de enfrentamento.
Rodrigo Savazoni: Eu concordo integralmente contigo. Eu estive na coordenação nacional do primeiro fórum, fui inclusive quem redigiu a Carta de Brasília. Lá nós discutimos essas questões e houve uma contribuição daquele momento que considero importante retomar: a formulação da ideia de campo público, que até então não existia no Brasil. Naquela época, reunimos a ABEPEC — Associação Brasileira das Emissoras Públicas, Educativas e Culturais —, que representava as radiodifusoras estaduais e hoje não existe mais; a ABTU, que você preside; a ASTRAL, que ainda estava se estruturando; e a ABCCOM, das comunitárias. Essas entidades constituíam o campo público. Conseguimos compreender profundamente as especificidades de cada um desses universos para trabalhar em conjunto. Por isso eu digo que fiquei um pouco frustrado com o resultado e com o encaminhamento posterior: o conceito de campo público se perdeu e não conseguimos montar um sistema público de comunicação no Brasil. Era isso que almejávamos naquele momento. Acabamos criando uma importante empresa pública de comunicação, que passou por idas e vindas, mas o sistema público ainda está por ser construído. Neste momento da TV 3.0, temos a oportunidade de recolocar o debate sobre um sistema público vigoroso de comunicação no Brasil. Acho que esse debate pode ser feito em um novo fórum e seria muito bem-vindo.
Contexto: Entrevista realizada nos estúdios da SET durante a SET Expo 2026.