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Reflexões sobre a roda de conversa #commarina

Marina Silva e Guilherme Leal, em roda com blogueiros

Cena 1: Fórum Social Mundial de 2003. Marina Silva, recém empossada Ministra do Meio Ambiente do Governo Lula, dá um depoimento para um público ávido por vê-la e ouvi-la. Era de esperança. Início de um projeto que, aos trancos e barrancos, vem mudando o Brasil para melhor.

Cena 2: Em 15 de maio de 2008, Marina Silva concede entrevista pela primeira vez após deixar o governo Lula. Sua saída do governo que ajudou a construir e a avalizar internacionalmente é um baque para todos que apóiam um outro modelo de desenvolvimento para o país.

Enquanto participava ontem da roda de conversa com Marina Silva (PV), promovida pelo seu comitê de pré-campanha, na Vila Madalena, em São Paulo, pensava insistentemente nesses dois momentos. A esperança e a incerteza. Os rumos que escolhemos.

O modelo adotado pela competente equipe de Marina assemelhava-se ao de uma coletiva de imprensa. O objetivo era dialogar, mas aos blogueiros cabia perguntar e a Marina, seu vice, Guilherme Leal (figura simpática) e Caio Túlio Costa, o ideólogo da campanha web, responder.

Minha vez não chegou. A pergunta que eu faria ficou em suspenso.

Enxergo a campanha de Marina como um fork (a divisão que ocorre entre comunidades de desenvolvimento a partir de alguma divergência de método ou de visão estratégica). Adoro forks. São saudáveis. A partir deles, muitas vezes, vemos nascer dois projetos coesos e concorrentes que estimulam a cooperação dentro de suas comunidades. A campanha de Marina é um fork? Fiquei sem saber o que ela pensa disso.

Também queria saber quais são suas divergências de fundo e quais são suas divergências de método com o governo Lula. Seu governo será uma continuidade ou representará uma mudança, em que sentido? O que vai melhorar? O que vai acabar? O que ela acha que o governo Lula produziu de melhor e o que ela acha que é o pior?

Confesso que ainda não entendi claramente o que Marina pretende, e suas últimas declarações, revisando a história dos choques entre governo e oposição não soam bem.

Durante o pouco mais de uma hora que reservou para nós, Marina apresentou sua visão da rede e da política. Mostrou-se aberta a compreender um tema que ela assume desconhecer. Marina dialoga, aposta em processos, compreende que os desafios contemporâneos são complexos e que não existe receita fácil para combatê-los, mas lhe falta assertividade e convicção, muitas vezes.

Sobre isso, para corroborar o que digo, cito dois momentos da roda de ontem:

1.Em resposta à pergunta de Pedro Markun sobre o Plano Nacional de Banda Larga, Marina apenas criticou o modelo de execução do plano pelo governo. Para ela, foi uma ação de cima para baixo, sem consulta pública. Também afirmou que não deveria ter sido feito em ano eleitoral. Vejo aí dois equívocos de avaliação: um governo deve governar até o fim do mandato. Ou seja, ano eleitoral é importante, mas não deve subjugar outros afazeres de um administrador. Além disso, Marina se exime de discutir o mérito. Há um plano, ele está posto, e gostaríamos de saber se na opinião dela é um bom modelo?

2.Sobre a Lei de Direitos Autorais, que o Ministério da Cultura vem debatendo há cinco anos, Marina demonstrou desconhecer o tema, saiu pela tangente, com uma avaliação abrangente (bem posicionada, é fato), dizendo que é preciso encontrar um equilíbrio entre o direito de autor e o direito de acesso. Ok. É isso mesmo. Mas não caberia aí um apoio enfático ao projeto que o governo Lula construiu com respaldo e apoio social? Essa questão é central para a estruturação social e econômica do país. Há um embate em curso, e Marina não demonstra estar em sintonia e por isso não assume posição clara.

De outra parte, Marina ganha empatia por ser uma figura carismática, de enorme estatura, sem dúvida uma expressão daquilo de melhor que a política brasileira produziu (e isso está centralmente ligado ao papel democratizante desempenhado pelo Partido dos Trabalhadores). No entanto, ao não tornar claro o que realmente pode ser feito em relação a temas centrais, que não foram de seu convívio político cotidiano (sua ligação sempre foi com as políticas setoriais de meio ambiente), deixa dúvidas no ar. Por ora, Marina é demasiado abstrata. Eu até gosto. Mas e o eleitorado?

Como ponto positivo, é interessante ouvir um candidato defender uma ação programática em um tempo de pragmatismos tolos. É bacana perceber que há sinceridade naquilo que ela propõe. Que a palavra chave para ela é mobilização e que já sacou que na rede é preciso dizer a verdade (ela até lembrou o exemplo de Mercadante, que twittou algo que pretendia fazer e não fez e pagou um alto preço por isso).

A grande ninfa da noite, repetida à exaustão por Marina e Guilherme, foi a palavra transparência – utilizada em diversos momentos, em diferentes contextos, com os mais variados fins.

Resta a certeza de que, se bem trabalhados, os valores e visões de Marina podem produzir um saudável movimento de aprofundamento de temas centrais para o mundo no início do Século 21, em uma eleição que tinha tudo para ser polarizada entre PT e PSDB.

6 comentários em “Reflexões sobre a roda de conversa #commarina”

  1. O que mais me surpreendeu durante a entrevista coletiva com blogueiros (afinal, era isso, e não uma roda de conversa) é que se sai, como o seu texto demonstra, com mais questionamentos sobre os planos de governo dela do que com respostas. Alguém aí faz ideia do que Marina defende?

    Estava interessado em ver como ela usaria a rede para a mobilização e viabilização de campanha. #obamafeelings total. Mas que candidato hoje não se inspirará no que Obama representou para os estadunidenses? Por que não aproveitar o encontro, já que foi alardeado que eram pessoas que estavam fazendo a internet no Brasil, para já traçar seu plano de governo referente à cultura digital?

    Se o problema do PNBL foi ter vindo de cima para baixo, como ela faria? Senti que o discurso era sempre de “estamos abertos à conversa”, mas a conversa que é bom, neca!

    Escrevi um pouco sobre as minhas impressões aqui: http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/paisagem-fabricada/entrevista-coletiva-commarina-silva-241829_post.shtml

    Gosto da Marina, mas até agora soa mais como oba-oba do propostas concretas.

  2. Olá. Acredito que compreendemos com o governo Lula, principalmente em contraste com o governo FHC, que a competência necessária ao governo está mais ligada a atitudes que, de fato, a conhecimentos. A transparência, a honestidade, o carisma e toda a história política de Marina Silva nos apontam realmente caminhos novos. Sejam esses novos caminhos “Fork” ou não.

    O mais significativo na maneira Marina de pensar política, é a franca abertura ao diálogo: o que se percebe de cara já na sua maneira de promover a campanha pelo twitter. Marina é indiscutivelmente antenada. Neste ponto os outros dois candidatos parecem meio obsoletos.

    Marina é Silva. Lula é Silva. De Silva pra Silva é linguisticamente plausível, politicamente oportuno e ambientalmente imprescindível.

    Abraço!

  3. Marina é o Obama do Acre, mas o Brasil não é os Estados Unidos. Insistir no desenvolvimento sustentável é incorporar a política do atraso conformista, que nada mais é que deixar de usar a escada de ascensão das grandes potências. Não é de se admirar que estas mesmas potências se travestem de ONG’s (Greenpeace, WWF, por exemplo) para recolher a escada e nos impedir de alcançar o topo.

    O Brasil é Serra ou Dilma. Marina é só um contra-tempo que vai me obrigar a ver duas vezes a cara do tucano estampado em uma urna. Lamentável!

  4. Marina tem me surpreendido positivamente. Quanto mais a ouço ou leio, mais altero minha visão inicial de uma candidata de uma única faceta. Há de fato algumas lacunas no discurso, mas acredito que isso seja verdadeiro para todos os candidatos.

    Com relação ao que ela disse sobre PT e PSDB, no entanto, acho sua caracterização incorreta. Ela não falou sobre governo e oposição, simplesmente, mas sobre dois partidos específicos. Acredito que com o governo Lula fica mais fácil perceber que há muito mais convergências do que divergências e que eles deviam ter se apoiado desde o princípio, trabalhando as divergências ao invés de terem se obrigado a alianças com partidos péssimos (DEM) e de aluguel (PMDB) para garantir governabilidade.

    O PT no governo aprofundou as medidas que denunciou e contra as quais votou anteriormente (o que demonstra ou crescimento no entendimento ou que anteriormente, como disse o Lula em 2003, podiam se dar ao luxo de bravatas por mera oposição), incluindo aí questões como aperto fiscal, metas de inflação e até mesmo a CPMF. Não é preciso pesquisar muito para achar similaridades e a maioria das diferenças são conjunturais.

    Também adotou políticas sociais similares às que estavam sendo propostas anteriormente, com condicionalidade servindo como base para políticas sociais que de outra forma seriam meramente assistencialistas. O Brasil avançou muito sob o comando desses dois partidos nos últimos anos e poderia ter avançado mais se PSDB não tivesse que fazer alianças com partidos como PFL/DEM e PT não tivesse que se aliar com Severino, Collor, Sarney e outros representantes da política coronelista e dessa geléia chamada PMDB. Portanto, acho que Marina acertou em cheio.

  5. Não irei votar na Marina Silva para presidente e isso vai muito além das opiniões dela sobre casamento gay, aborto ou sobre a Internet. Até vejo a candidatura dela com bons olhos. Acho a Marina uma figura admirável, mas não vejo nada nesse modelo de desenvolvimento dela. Parece que vai transformar o MDIC e o Ministério da Agricultura em grandes certificadores de licenças ambientais.

    Não tem política industrial, política de pesquisa, política cultural no horizonte dela que não passe por condicionantes e certificações. Acho esse discurso de se adaptar tudo a um padrão de condutas meio estranho e tem mais cara de plataforma legislativa do que de governo.

    O que colocar no lugar desse modelo predatório que faz a economia prosperar, as pessoas melhorarem de vida, irem pra faculdade, o Brasil ganhar uma dimensão internacional mais relevante. Procuro em lugares diferentes e a resposta da Marina ainda não me convenceu.

    Além disso, acho que o discurso político dela tem um componente eleitoral que é ignorar o pau que ela irá comprar. Se é pra marcar posição, por que não apontar quais são os entraves do fim dessa política em que ficamos reféns de uma bancada ruralista que, no limite, vive de subsídio estatal. Qual a política de terras que o governo dela vai tomar? Como readequar o país a normas trabalhistas e ambientais mais justas sem perder a competitividade? Como estimular a economia criativa e mesmo a indústria através de financiamentos do BNDES. Será que ela encara comprar a briga que Lula só esboçou com o Agnelli da Vale para saltarmos de exportadores de matéria prima para produtores industriais de fato?

    Essas são só algumas questões que eu acho que a campanha da Marina nem se limitou a pensar. O problema é que a concepção Instituto Ethos da campanha dela. Que acredita que basta adequar as coisas a um código de conduta para que um modelo mais humano de desenvolvimento se instale. O buraco é bem mais embaixo e o conflito político vai bem além.

  6. Muito tempo depois de você escrevi um texto em meu blog que tentava fazer uma avaliação política do crescimento da Marina em contraste com a sua falta de propostas. Pen que não vi o texto antes, caso contrário certamente teria citado.

    Se tiver interesse, seguem os textos que escrevi:

    – Após o primeiro turno: http://eduardosan.wordpress.com/2010/10/05/a-despolitizacao-da-sociedade-brasileira/
    – Após o segundo turno: http://eduardosan.wordpress.com/2010/11/22/a-vitoria-desejada-que-eu-nao-comemorei/

    Parabéns pelo texto.

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